Antes tarde do que depois. Somente agora começo a tomar contato com a alta literatura de Menalton Braff. Que me impressiona e alerta com a sua riqueza de visão e capacidade de expressá-la. É um daqueles raros autores que derramam luz sobre as faces mais conhecidas do cotidiano para extrair delas densidades inesperadas. Como se olhássemos pela primeira vez com a sabedoria de um deus onisciente ou com o largo espectro e a profundidade de quem esperou demais e aprendeu. Alguma coisa entre o imediato insight e o demorado crescer de um conhecimento. Assim nos reconhecemos naqueles personagens que são nossos também – uma parte de cada um, retorcido, transformado, mas lá, mas aqui.
Nem é preciso um roteiro cheio de intrigas ou reviravoltas. O que mais espanta em seu texto é o desvendar dessa visão em que cada fóton parece ganhar voz com uma linguagem original. ‘Bolero de Ravel’ mostra dois irmãos, Adriano e Laura, jovens adultos, lidando com a pós-morte de seus pais em um acidente. Adriano desde adolescente é alguém que decide sair do sistema – da lógica da vida estruturada em agenda, da praticidade das coisas, do mercado. A perda dos pais faz com que ele afunde ainda mais no processo de encapsulamento e deserção do mundo externo, enquanto Laura é aquela que maneja o lado prático da vida, da normalidade. ‘Bolero...’ se desdobra em espiral como a música de mesmo nome, enquanto os irmãos se centrifugam. Simpatizo com a negação de Adriano mas não sei até que ponto ou quando ela leva à corrosão da capacidade de se comunicar com essa vida institucionalizada e de alguma forma manter a afirmação dessa diferença. Há uma tragédia a caminho ou uma forma de liberação?
Na fina escrita de Menalton Braff as iluminações de cada fragmento assombram e encantam o percurso em que nos transformamos e tentamos compreender.