nós continuaremos aqui, esperando que isto mude e, se não mudar, veremos, ou vamos embora ou morremos, assim o quis Deus, que seja o que Deus quiser, o que Deus tiver vontade, o que lhe der na telha.
A violência algumas vezes é como uma tromba dágua, que chega de repente e destrói tudo, sem tempo para pensar, ou questionar. Outras vezes é como uma chuva fina, mas persistente, que vai aumentando gradualmente até se tornar uma enxurrada que também destrói tudo. Os exércitos é sobre o segundo caso, como a violência se torna rotina, até o momento que é impossível impedi-la.
Publicado em 2006, o livro escrito pelo colombiano Evelio Rosero apresenta a vida do idoso professor aposentado Ismael, que vive em uma pacata vila no interior da Colômbia com sua esposa Otilia, próximo aos seus vizinhos, em especial ao brasileiro e sua mulher que tantas vezes aparece do outro lado com poucas roupas. Um lugar pacato e tranquilo, que com o tempo vê a violência se aproximar graças aos conflitos entre o Estado, as milícias e os narcotraficantes.
Com o tempo, essa violência atinge toda a pequena vila, com desaparecimentos e mortes cada vez mais frequentes, falta de amparo legal e uma fuga em massa dos moradores que sofrem com o medo permanente de serem as próximas vítimas. Durante todo o tempo, acompanhamos Ismael, observador de toda essa destruição causada por uma violência que já não tem mais apenas uma causa ou causador, mas que se mostra como uma deusa impiedosa e inclemente, que alimenta a crueldade dos seres humanos.
Não me recordo quem me indicou ou onde li sobre Os exércitos, só posso dizer que foi uma das melhores leituras do ano, apesar de muito dolorosa em diversos momentos. A fluidez do texto, poético muitas vezes, contrasta com as descrições cruas do que é a violência em todas as suas vertentes.
Me faltam linhas para descrever esse livro, mas posso comparar com a leitura de O ruído das coisas ao cair e aqui, de verdade, é possível entender o terror e o medo dos colombianos em relação às violências que enfrentaram. Aqui, talvez, seja a violência a personagem principal e poucos autores parecem ter o talento para mostrá-la de forma tão nítida, como Evelio