Esse livro apresenta o primeiro encontro entre o alemão Jürgen Habermas e o francês Jacques Derrida, dois dos mais importantes e polêmicos filósofos em atividade, que representam posições filosóficas e políticas divergentes. Ao serem questionados, logo após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, sobre a contribuição que a filosofia tem a dar tanto ao entendimento dessa forma de terrorismo quanto à reação unilateral por parte dos Estados Unidos, surpreendentemente ambos se mostram de acordo a respeito do que fazer para impedir a polarização entre o bem e o mal - apelam para o retorno dos ideais iluministas de participação e cidadania, agora no plano mundial.
Filosofia em tempo de terror -
Giovanna Borradori
Na entrevista à professora de filosofia Giovanna Borradori, Habermas empenhou-se em definir o terrorismo “legítimo” que busca metas “realistas” de maneira “realista” e distingui-lo do “ilegítimo” que caiu sobre Nova York, visto como um crime ininteligível e incompreensível, exterior à modernidade e à razão de validades universais. Reconhece que o Ocidente deveria frear o consumismo e domesticar a selvageria do capitalismo para ser percebido como um modelo de civilização, mas refere-se à democracia como concessão recíproca de direitos iguais pelos cidadãos, a comunicação racional e dialógica e o universalismo como se fossem realidades não problemáticas, salvo distorções pontuais. Derrida, sem negar os valores defendidos por Habermas, foi mais além do senso comum. Comparou o ocorrido a uma crise auto-imune (como, digamos, o lúpus eritematoso) em que o sistema imunológico perde a capacidade de diferenciar o organismo de corpos estranhos e põe em risco a vida do paciente ao rejeitar e destruir seus próprios tecidos. O Taliban e a Al-Qaeda são fenômenos modernos, armados pelos EUA para expulsar os soviéticos do Afeganistão e pela aliada Arábia Saudita – um instrumento da guerra fria que se voltou contra seus criadores. E estes, por sua vez, engendram uma guerra contra si mesmos ao responder com um círculo vicioso de repressão e revolta crescentes. Traços daquilo que uma totalidade explicitamente exclui estão sempre silenciosamente contidos dentro dela – e só podem ser completamente eliminados se a própria totalidade for destruída. O francês recusou fazer distinções absolutas entre guerra e terrorismo e não hesitou em apontar os limites da ordem legal internacional em nome das quais Habermas julga a repressão justificável (e endossou a coalizão autorizada pela ONU a punir a invasão do Kuwait, na guerra do Golfo de 1991) – a começar pela obviedade de que os EUA e Israel são os primeiros a desrespeitá-la. Apesar disso, afirma que, se tivesse de optar entre os dois lados, optaria pelo lado que luta em nome da “democracia” e da “lei internacional”. Não porque tal alegação corresponda aos fatos, mas porque, mesmo sendo uma promessa verbal e mesmo cínica, faz uma promessa implícita e abre uma perspectiva de aperfeiçoamento e democratização – ao passo que “Bin Laden” nada promete para este mundo e seu discurso não se abre para futuro algum. Essa disposição de reconhecer o caráter histórico e finito da racionalidade – não para denunciá-la em geral, mas para dar a correta dimensão de sua fragilidade e dos riscos a que está exposta – pode estar em parte relacionada à sua biografia. Derrida nasceu de uma família judia sefaradita em uma colônia francesa, a Argélia. Como todos os judeus argelinos, viu-se transformado em apátrida, quando o governo colaboracionista de Vichy lhe cassou a cidadania francesa. Depois que esta lhe foi devidamente devolvida, foi estudar e viver na França, de onde viu sua terra natal rebelar-se, com toda a justiça, contra o país que o acolhera e, em mais alguns anos, uma parte do território francês “indivisível” transformar-se um país árabe independente e seus líderes passarem de terroristas a heróis nacionais. Uma experiência de vida que não poderia deixar de enfatizar a historicidade dos conceitos, muito mais que a de um pensador cuja identidade nacional e cultural jamais foram colocadas em questão dessa maneira.
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