Na época de sua publicação original, na década de 1970, o livro soava nostálgico por focalizar um cenário e um bando de personagens que não existiam mais. As histórias da Boca contadas por Hiroito de Moraes Joanides evocam um tempo e um crime style que desapareceram. É um verdadeiro passeio pelo bas-fonds da cidade, em meio a prostitutas, boêmios, viciados e punguistas. Vidas miúdas, que o escritor, afastando-se do registro jornalístico, vislumbra como épicas
Boca do Lixo -
Hiroito de Moraes Joanides
Da boemia para a marginalidade, do suposto assassinato para a vida do crime
Logo nos primeiros capítulos, Joanides desenha uma tipologia da fauna da Boca: malandros, vadios e boêmios. Os dois primeiros seriam os espécimes principais, enquanto o último um tipo de subespécie. Os malandros vivem do crime, marginalizados e marginais, caminham pela ilegalidade, seu sustento vem de alguma contravenção. Os vadios estão no limite da lei - às vezes até ultrapassam essa linha -, não são ociosos, afinal, não existe ociosidade no submundo, são aqueles que, de algum modo, trabalham para os malandros, sobrevivem da maneira que podem. Prostitutas - os cafetões estão em outra categoria, são uma espécie de parasitas, são os imorais dentro da própria imoralidade -, aviõezinhos... Se sustentam de modo imoral perante a sociedade e não necessariamente como criminosos. Já os boêmios são a porta de entrada para esse submundo, espécie de clientela desse meio. Embora o livro seja categorizado e descrito como uma autobiografia, a partir dessa tipologia e do título do livro fica evidente do que se trata: uma radiografia da região paulista atravessada e enviesada pelo olhar de seu autor. Sim, estamos diante da entrada e saída de Joanides na vida do crime, na ascensão e queda do Rei da Boca do Lixo, mas, esta narrativa, está o tempo todo desenhando esse ambiente. Se há ficcionalização nos fatos, exagero, é pelo prazer narrativo, pela autojustificativa, pela autopiedade. Hiroito está ciente de seus crimes e de seus escrúpulos, porém, decide se defender, desenhar culpados (principalmente a mídia, mas também a sociedade). Em uma questão ele está certo: os criminosos são parte da sociedade, produto dela. Há, neste imbróglio, uma certa tergiversação: ele não queria continuar na vida do crime, mas, para os criminosos, não há outra saída... Hiroito é outra história, ainda que essa afirmação tenha seu fundo de veracidade. A ressocialização é um problema (ainda presente) e Hiroito é parte dele. Ele queria mesmo a ressocialização? Ele realmente não matou seu pai? A epígrafe utilizada no livro, uma citação de Goethe - "Criança, o que fizeram de ti!" - não é apenas demonstração de erudição, mas serve como premissa para essa crítica à sociedade. São questões ambíguas, complexas, o que torna sua história ainda mais cativante, ainda mais brasileira. Prostitutas, crianças, assassinos, bêbados, comerciantes, fauna & flora são um Raio-X do Brasil. Ao mesmo tempo que Hiroito se revolta com a prostituição de uma menina de 15 anos, páginas depois ele começa se envolver com outra de 16... Contradições, incoerências: aí, talvez, podemos falar em veracidade. Um dos prefacistas dessa última edição, questiona a autoria do livro e um certo floreio, rebuscamento na escrita. Pouco me importa a verdadeira autoria - ainda que seja possível ser o próprio Rei da Boca, dada suas condições sociais e origem burguesa -, a questão é o estilo pomposo, às vezes afetado, às vezes impressionante, sofisticado. Falando de um dos seus colegas, diz Hiroito: "[...] algo dentro de si o impedia, em qualquer situação, de ser o primeiro a falar. Parece que entre o berço da sua manifestação verbal e o mundo exterior havia um porta que só podia ser aberta do lado de fora". Embora a metáfora da porta seja comum, o modo como ele a constrói é digna de nota: o apuro gramatical, esse domínio da sintaxe, o tom de pesar e de admiração. O livro tem seus pontos altos, um estilo que eu gostaria de ver numa escrita mais abertamente literária. Compreender esse submundo, não é só compreender São Paulo, Brasil, mas mais especificamente, compreender as origens do que se convencionou chamar de Cinema da Boca do Lixo. O apelo erótico dessa etapa do cinema industrial brasileiro, tem, em sua origem, respaldo nessa vida marginal, não apenas nos desejos do espectador médio brasileiro, mas, na própria origem dos técnicos e cineastas que viviam internamente nesse meio. Se a era-hoteleira-prostibular é afetada pela popularização dos automóveis como aponta Hiroito (uma conclusão bem lógica, de correlação), qual seria a consequência para que a Boca se torna-se São Paulo como um todo? A provocação final de Hiroito, que diz que a Boca cresceu tanto que virou São Paulo, tem lá seu fundo de verdade (também): o submundo não está refém apenas de regiões específicas, está mais pulverizado, espalhado.
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