Alex sofre de uma doença terminal, ela tem um tumor no cérebro e após ser submetida a todo tipo de tratamentos, a garota já perdeu qualquer esperança de vencer a doença. Por isso ela decide abandonar a quimioterapia e aventurar-se nas montanhas, com um único objetivo: despedir-se definitivamente de seus pais, falecidos em um acidente, deixando as cinzas deles em meio à um lago, um desejo que certamente seria a vontade deles.
Quando Alex está acampando, seus caminhos se cruzam com os de Jack e sua neta, Ellie. Após compartilharem uma refeição, os três são surpreendidos por um forte impacto, uma dor de cabeça dilacerante impossível de resistir. Alex perde a consciência rapidamente, tomada pela dor e ao despertar se depara com o cadáver de Jack, há poucos metros, e não apenas isso, mas também o cadáver de uma centena de pássaros que simplesmente caíram do céu, alem dos animais do bosque. Por alguma razão surpreendente, Alex e a pequena Ellie foram as únicas sobreviventes e a coisa se coloca ainda mais rara quando Alex nota que sentidos que havia perdido há muito tempo e memórias que já haviam sido apagadas de sua mente como efeito do terrível tumor voltam à tona. Alex já havia perdido o paladar e o olfato mas de repente ela se dá conta de que não apenas recuperou esses sentidos, mas que agora possui um olfato mais apurado do que o normal, sendo capaz de distinguir até mesmo sentimentos pelo simples odor que as pessoas desprendem.
Ellie e Alex decidem adentrar-se no bosque, em busca dos guardas florestais ou de alguém, qualquer um, que possa ajudá-las. Os aparelhos eletrônicos deixaram de funcionar, como se se tratara de um curto-circuito e apenas as coisas antigas, movidas à pilha e não à eletricidade seguem funcionando.
Enquanto se adentram no bosque, Ellie e Alex terão a amarga surpresa de descobrir que algo muito pior do que o curto circuito ou até mesmo a morte está a espreita. Enquanto os mais velhos caíram mortos por causa do curto-circuito (como Alex chama), os mais jovens, como ela e Ellie, tiveram seus cérebros afetados e se transformaram em zumbis, criaturas violentas e, diferentes do que se poderia imaginar, capazes de raciocinar e de sobreviver.
Alex e Ellie deverão agora não apenas encontrar ajuda, mas tratar de sobreviver, em um novo mundo em que se tornaram um alvo constante.
Menos mal que alguns indícios demonstram que outros sobreviveram, porém, poderá Alex e Ellie confiar nestes sobreviventes ou serão estes ameaças ainda maiores para a sobrevivência delas?
Ilsa J Bick nos apresenta um principio de trilogia bastante original e eletrizante. Os zumbis de Ilsa, embora nesta primeira parte não tenham tido tanto destaque, se apresentam com um perfil diferente, capazes de sobreviver e que ainda mantém os conhecimentos que aprenderam antes da mutação. Sedentos e ágeis (sim, esqueça os zumbis pesados que se movimentam devagar, os zumbis de Ilsa são rápidos, fortes e capazes de lutar para garantir a presa), estes não apenas serão o grande temor de Alex e Ellie, como também o maior desafio para os poucos sobreviventes restantes desse cenário pós-apocalíptico e muito obscuro. A busca por outros sobreviventes pode não ser um grande acerto de Ellie e Alex e as reações extremas chocam o leitor à cada página. Até onde o ser humano é capaz de ir para salvar-se a si mesmo e aos seus? Somos mesmos capazes de cometer atrocidades quando perdemos as esperanças? À medida em que nos adentramos na história de Cenizas, a autora nos apresenta todas essas questões, ao conhecermos uma sociedade de sobreviventes que, apesar de terem sobrevivido, muitas vezes demonstrarão serem tão perigosos quanto os próprios canibais à solta.
De uma maneira que prende o leitor, Ilsa nos apresenta uma primeira parte que, apesar de não ter muita ação, consegue picar a curiosidade ao trazer-nos uma nova sociedade, que passa a ser organizada de uma forma extremista e controladora, tudo em nome da sobrevivência, e personagens que surpreendem à cada instante, alternando-se entre vilões e heróis, com personalidades que parecem vacilar entre o bem e o mal.
Junto à Alex, a protagonista, o leitor é convidado a desvendar o mistério de porquê alguns se salvaram e porquê esses Salvados podem não ser exatamente confiáveis. Com reviravoltas impactantes, surpresas, conspirações e cenas fortes, à cada instante conhecemos novos personagens, bem desenvolvidos pela autora e com personalidades que colocam dúvidas no leitor durante toda a história.
Gostei muito da ambientação. A autora é bastante convincente e a justificativa encontrada para todas as mudanças é não apenas crível como até mesmo possível, achei bastante original e interessante. Gostei da maioria dos personagens. Muitos ainda não demonstraram o que realmente são, mas me intrigam bastante. Pela protagonista, Alex, tive alguns sentimentos encontrados. Na primeira parte da história Alex é apaixonante, uma menina valente e determinada, que facilmente ganha a simpatia do leitor. Porém, durante a segunda parte, achei que o personagem decaí. Alex se torna no mínimo conformada, e o que é pior, achei muito estranho e frio a maneira como ela facilmente se desapega dos seus, a facilidade com que ela esquece daqueles que foram importantes à ela. Outra coisa que não me agradou é notar o quanto a personagem passa a ser influenciável, muitas vezes se tornando uma marionete dos outros ao redor, sendo facilmente manipulável. Alex passou por tantas coisas na primeira parte, que deveria ter aprendido a não entregar-se tão fácil a qualquer sorriso doce que se apresenta diante dela.
O romance (na verdade um triangulo amoroso) tampoco me convenceu. Eu gostei muito do romance que encontramos na primeira parte, acontece de uma forma bastante coerente, gradual e os dois personagens agradam bastante. Na segunda parte começa um novo, o famigerado triangulo amoroso, e essa segunda parte não é convincente. Vamos, se você se apaixona tanto por alguém, é impossível com tanta facilidade para rapidamente sentir-se atraída por outro alguém. Sei que Alex é uma adolescente, vivendo uma fase de mudanças e o cenário aterrador certamente deixa seus sentimentos confusos, porém, o surgimento desse segundo romance não me pareceu convincente para nada.
Apesar disso, Cenizas acerta em muitas coisas. A história é original, a narrativa é fluída e o final, surpreendente, deixa o leitor com muita vontade de começar logo a segunda parte, Sombras.
Resumindo, Cenizas é um começo de saga bem escrito e que consegue manter o interesse do leitor até o final. Apresentando-nos um cenário assustador, a luta pela sobrevivência é certamente o maior acerto do livro, já que cada atitude dos personagens parece ter um fundamento e uma razão. É fácil colocar-se na pele de cada personagem, e ainda que falte muito para descobrir sobre a história, tenho a sensação de que a coisa se colocará melhor a cada livro. Que venha Sombras...