Numa cena do filme "Kill Bill Vol. 2" a personagem Ellie Driver comenta: "Eu amo a palavra 'colossal'. Não é uma pena que não tenhamos mais chances de usá-la?" Bem, eis aqui uma boa oportunidade de usar a tal palavrinha.
A fama de "Guerra e Paz" o precede: as milhares de páginas, as centenas de personagens... Ainda me lembro de um episódio dos Peanuts que assisti quando era criança, no qual Charlie Brown tinha que ler "Guerra e Paz" para uma de suas disciplinas na escola. O coitado era então obrigado a andar por aí arrastando consigo um calhamaço quase do tamanho dele próprio - e sempre pegando no sono tão logo começava a lê-lo. Anos depois, no colegial, um amigo meu começou a lê-lo e descreveu a experiência como "intensa". Eu associaria esta palavra ao livro dali em diante. "Guerra e Paz" se tornou para mim um Everest da literatura, um empreendimento que exige preparação, fôlego, perseverança e coragem. E tal como a montanha nevada, se me afigurava ameaçador em sua imponência.
Não obstante, logo entendi que eu teria de encarar o magnum opus de Tolstói algum dia. Resolvi lê-lo neste meu 25º ano de vida, como uma espécie de rito de passagem entre meu primeiro quarto de século e o próximo. Cumprido o rito, achei por bem escrever esta resenha.
"Guerra e Paz" é um daqueles livros que te fazem parar no meio da leitura para olhar para sua capa alguns instantes, embasbacado, perguntando-se como pode ele ser tão bom. É um livro que convida a aplicar adjetivos superlativos, tais como magnífico, genial, assombroso ou o já mencionado colossal, tão amado pela vilã caolha de Tarantino. Enorme também não cai mal - o tamanho não tem como passar despercebido, especialmente quando você estiver procurando uma posição confortável para segurar o calhamaço. Tolstói dá uma contundente aula de descrição, diálogo, caracterização de personagens, condução de tramas e subtramas, etc., daquelas de fazer qualquer escritor de gaveta (como eu) colocar o rabo entre as pernas. Ele consegue discorrer sobre paixonites adolescentes e manobras militares e políticas com a mesma familiaridade. Até agora me pergunto como ele conseguiu falar com tanta propriedade de tantas facetas diferentes da experiência humana numa mesma obra. É como se ele alternasse constantemente entre um telescópio e um microscópio: com um observa o movimento dos corpos celestes no espaço, com outro, estuda as interações dos micro-organismos que vivem numa gota d'água.
Tenho para mim que todo leitor que se preze deve passar por "Guerra e Paz" algum dia. Seja para amá-lo, seja para odiá-lo, todos deveriam pelo menos tentar lê-lo. E para aqueles que perseverarem até o fim, não será pequena a recompensa. Sem falar que para estes o conceito de livro grande nunca mais será o mesmo...