A gente não ama uma pessoa porque ela é perfeita, ama apesar de ela não ser.
Até onde você iria para salvar a vida de um filho? Apesar de ser uma pergunta clichê, a obra de Jodi Picoult é exatamente sobre as escolhas que envolvem esta questão. Relacionando moral e emoção, lealdade e egoísmo, o leitor é levado a uma estória onde os limites humanos são testados a todo momento. Até onde o amor justifica certas atitudes?
A premissa em A Guardiã da minha irmã ativa dois pontos da mente dos leitores, a que liga às emoções e que liga ao raciocínio. De um lado você tem uma mãe que recebeu a notícia de que sua filha de dois anos tem cerca de 30% de chances de sobreviver a uma leucemia aguda. E que luta de todas as formas possíveis para transformar esta estatística, a cada dia (durante anos). Do outro lado temos uma criança que foi de certa forma sujeitada a salvar a vida da irmã mais velha, uma menina que está cansada de viver entrando e saindo de hospitais, passando por procedimentos cirúrgicos. Anna quer uma vida, sua mãe quer que Kate (sua irmã doente) tenha chance de viver. A família deles está se deteriorando junto à doença que consome Kate. De certa forma, o câncer não está mais só na adolescente, mas em todos os membros da família.
No aspecto emocional o leitor é capturado no meio dessa tempestade de sentimentos contraditórios. Eu compreendia a mãe e a filha, o lado de ambas. Já na questão racional, o leitor terá bastante conteúdo com que se ocupar. Células tronco? O que exatamente é isso? Então eles criam um ser vivo ainda no óvulo que é geneticamente compatível com outro indivíduo? E depois usam essa criança para assegurar a vida de outra... Isso é legal? Enfim. O livro é fonte de muitos questionamentos, além da óbvia temática comovente.
A forma como a autora expõe as emoções e conflitos dos personagens, incluindo Jesse (o irmão de Kate e Anna),o advogado Campbell e seu romance mal resolvido com Julia. Detalhes que criam um enredo prolixo e coeso, uma trama que guia o leitor para vidas que se interligam e apesar das diferenças, todos lutam contra alguma coisa, alguns contra seus corpos, outros contras seus medos...e outros contra suas próprias emoções.
A reviravolta que incide nas últimas páginas da obra me deixou... Vazia. Eu simplesmente não acreditei no que estava lendo. Em algum momento durante a leitura, eu perdi meu coração para os protagonistas da estória. Eu realmente me importei com os personagens, eles parecem tão reais quanto às pessoas que conheço. Eu acabei me apaixonando por todos. A escolha narrativa que Picoult faz, foi extremamente dolorosa para mim enquanto leitora. Imagino o quanto deve ter doido na autora. Não deve ter sido fácil escrever, já que personagens são partes de um escritor.
Eu tenho uma irmã mais velha, e passei a maior parte do livro me perguntando se eu estaria disposta a fazer tudo o que Anna (mesmo inconscientemente) faz por Kate. E cheguei a uma conclusão. Eu faria qualquer coisa, a qualquer hora para salvar a minha irmã. O amor é assim,ele desconhece certos limites,principalmente a razão. A Guardiã da minha irmã é sobre estes limites emocionais e morais, é uma estória que partiu meu coração inúmeras vezes, por isso preparem-se para ter suas mentes viradas do avesso, corações pesados e debates polêmicos após a leitura.
Sofrimento, amor, lealdade, fragilidade física e emocional...
A Guardiã Da Minha Irmã é um daqueles livros que podem modificar suas certezas e quem sabe até a sua vida. É uma obra controversa, comovente e belíssima. Inesquecível.