Alguns deles pareciam humanos, mas eram tão horríveis quanto os anteriores. Mais horríveis, na verdade, porque o que é humano é sempre mais horrível, o senhor não acha?
O talento de Stephen King para escrever terror e horror psicológico é inegável. A história de sua obra fala por si, com dezenas de livros e contos adaptados para cinema e séries, muitas de sucesso absoluto. Ler King é sempre a certeza de encontrar uma leitura fluída e difícil de largar. Ao cair da noite, um de seus muitos livros de contos, confirma essa certeza e ainda entrega uma obra-prima dos contos escritos por Stephen King.
Ao cair da noite é uma coletânea de 13 contos, escritos ao longo da carreira de King, mas em especial após um período em que ele foi estimulado a escrever mais contos. O livro abre com o fantástico Willa, sobre um casal que está em uma estação de trem aguardando para ser resgatado após problemas do trem que estavam. Esse conto, em específico, carrega algo que sempre me fez gostar muito dos livros de Stephen King: A capacidade de incluir trilhas sonoras no meio dos textos e como eles casam tão bem com as cenas.
Seguem-se os contos A corredora, sobre uma mulher que corre para cuidar das próprias dores após perder uma criança e que acaba envolvida em uma cena de crime e O sonho de Harvey, talvez um dos contos mais fracos do livro, sobre um homem de meia-idade que tem um sonho incomum.
Depois temos Posto de parada, sobre um autor que presencia uma cena de violência em um posto no meio da estrada, e o muito bom A bicicleta ergométrica, que conta a história de um ilustrador que acaba acessando outro mundo após acabar viciado nos exercícios. Na sequência chega o espetacular, pra dizer o mínimo, As coisas que eles deixaram para trás, reflexo do atentado de 11 de setembro nas obras do King, como ele mesmo diz nas notas finais.
Após, temos o fraco Tarde de formatura e o ponto alto da coletânea: N.. N. é um terror psicológico de extrema qualidade, o tipo de obra que só poderia ter sido escrito por um mestre como Stephen King. O texto virou Graphic Novel e animação e tem níveis de profundidade que vão te abraçando como a escuridão que está ali descrita. É a transformação do TOC em horror psicológico e como ela age sobre a nossa própria percepção da realidade. N. vale o livro por si só e, sem dúvida, merece toda a aclamação que tem.
Após N. o livro mantém uma ótima qualidade de contos, com The New Yor Times a preços promocionais imperdíveis, um contato muito bem feito com o sobrenatural, Mudo sobre um homem que dá carona para um personagem muito particular, Ayana que é mais um contato com o sobrenatural, dessa vez com as questões de milagres e o sufocante No maior aperto, sobre uma briga entre vizinhos que se torna algo muito maior.
Ler Stephen King é sempre uma experiência prazerosa. Ainda que escreva terror e suspenses que podem muitas vezes nos incomodar em pontos profundos de nossa própria mente, ele sempre consegue divertir. Ler King é como sentar com um amigo com uma habilidade fora do comum para contar histórias e prender nossa atenção até o último minuto, sem precisar recorrer a sustos bobos ou histórias mirabolantes. Um gênio que nos mostra que o terror psicológico pode estar aí, do seu lado, onde você menos espera.