Nos capítulos iniciais Kenneth Slawenski nos informa que Sonny era o apelido que Jerome David Salinger (1919-2010) recebeu quando criança. Depois, na juventude, era comumente chamado de Jerry, até mesmo no tempo em que serviu o exército. Fez cursos de redação criativa e desde logo tentou publicar seus contos em respeitadas revistas de literatura da época.
Na era pré-televisão os americanos liam bastante e os contos, leitura rápida, eram muito apreciados. Nos anos de 1930-1940, as revistas chegavam a pagar até 25 dólares por um deles. Mas Salinger teve de batalhar bastante para conseguir ver seus textos publicados (ter um conto publicado na respeitável The New Yorker, p. e., conferia prestígio a um jovem escritor e abria portas para várias editoras). Em alguns deles já aparecia o personagem Holden Caulfield, que depois faria a glória do autor com O Apanhador no Campo de Centeio.
Ficamos sabendo também de sua paixão por Oona O’Neill, filha do famoso dramaturgo Eugene O’Neill, que mais tarde se casaria com Charles Chaplin. Salinger fica amigo muito próximo de William Saroyan (depois autor do belo romance A Comédia Humana) e que namorava uma das amigas de Oona, Carol Marcus. Carol serviu de inspiração para a Holly Golightly, de Truman Capote, celebrizada em Breakfast at Tiffany’s (ou Bonequinha de Luxo, no Brasil). E aqui é impressionante o detalhismo, o nível de minúcias com que Slawenski trata a vida de Salinger. Ficamos sabendo que inúmeros de seus contos estão perdidos para sempre, uma pena. Contos, histórias curtas, eram sua praia, ele confessa a um de seus editores, e mesmo O Apanhador no Campo de Centeio é muitas vezes classificado como uma novela, nem sempre um romance.
Salinger serviu o exército americano por mais de 3 anos, mas nunca deixou de escrever durante esse tempo, somente quando os combates tornaram essa tarefa impossível. Participou diretamente da II Guerra Mundial; esteve no front na França e na Alemanha, lutando contra os nazistas. Algumas páginas relativas a esse tempo são terríveis, com o relato de milhares de jovens, muitos deles seus companheiros, sendo conduzidos à morte, envolvidos pelas táticas nazistas de guerra, mas também pelos erros dos comandantes militares americanos. Verdadeiras carnificinas em que morriam centenas de soldados americanos para libertar uma vila francesa de poucos habitantes. Durante a guerra e mesmo depois dela Salinger escreveu muitos contos com fundo antibélico, fartamente citados e comentados por Slawenski.
No capítulo chamado Purgatório, pelo título tem-se a impressão de que Slawenki vá tratar das consequências psicológicas que a guerra provocou em Salinger, já de volta à vida civil, seu ardente desejo durante a maior parte do tempo em que esteve militarmente engajado. E pensar que ele havia se alistado pois andava cansado da vida tediosa que levava, com vários de seus escritos sendo rejeitados pelas revistas de literatura. Mas não é bem isso e ficamos sabendo que além de ser obrigado a permanecer na Alemanha durante algum tempo, por conta dos serviços de contrainteligência - de busca e prisão de nazistas, ele se casa com a depois médica Sylvia Welter. Em maio de 1946 volta definitivamente para os EUA, trazendo a mulher. Poucos meses depois eles se separam, por conta dos problemas dele (em parte decorrentes do que viu e passou no exército) e do “gênio intratável” da mulher.
A metade do livro coincide justamente com o capítulo intitulado Holden. Que trata, é claro, de Holden Caulfield, o heroi de O Apanhador no Campo de Centeio, um dos personagens mais amados da literatura universal. As enormes semelhanças entre Salinger e Holden são apontadas por Kenneth Slawenski, que também mostra toda a gênese do livro: fala dos contos escritos por Salinger antes de 1951 (o livro foi lançado nesse ano) em que o personagem já aparecia. O livro causou grande alvoroço nos meios literários americanos e Salinger, que tanto batalhara para ser reconhecido como um escritor de talento, agora tenta escapar dos jornalistas, entrevistadores, leitores, etc., pois havia se tornado uma celebridade nacional. O Apanhador teve várias edições seguidas, muitas críticas positivas, mas teve uma recepção morna na Inglaterra, a ponto de deixar o editor inglês de Salinger em posição desconfortável. São muitas páginas sobre a obra máxima de Salinger e o personagem Holden Caulfield, então não dá para resumir aqui.
Depois da guerra, e por causa dela, Salinger vinha se tornando místico, querendo adquirir um grau mais alto de espiritualidade e passa a estudar uma corrente filosófica hindu, os ensinamentos de um santo bengalês Sri Ramakrishna, conhecidos com Vedanta. Vários de seus contos dos anos de 1950 vão mostrar personagens em busca de elevada espiritualidade, como ele próprio buscava. Para ter a paz necessária que necessita para sua vida e seu trabalho de escritor, procura um lugar sossegado para viver. Visita uma pequena propriedade rural em Cornish, New Hampshire, 380 quilômetros distante de Nova York.
O lançamento do Apanhador em edição de bolso também é um enorme sucesso de vendas e ele consegue então reunir dinheiro suficiente para comprar sua sonhada paz. Muda-se para Cornish e durante algum tempo procura integrar-se à pequena comunidade, como qualquer morador faria. Mas depois, devido a um incidente, afasta-se dos habitantes, constrói uma cerca em torno de seu chalé e não atende à porta quando é procurado pelos jovens estudantes, que foram seus maiores amigos ali. Por outro lado, é lançada uma coletânea de seus contos mais importantes, Nove Estórias, que também faz grande sucesso entre os leitores americanos. Mas que na Inglaterra, igual ao Apanhador, tem fria recepção.
Antes mesmo de se mudar para Cornish, Salinger havia se apaixonado por um garota quinze anos mais nova que ele, Claire Alison Douglas. Entre idas e vindas, o romance levou-os ao casamento em 1955 (Claire também já tinha uma experiência matrimonial anterior). Casaram-se em fevereiro e a filha deles, Margaret Ann (ou Peggy, depois), nasce em dezembro do mesmo ano. Deixar Nova York e suas viagens internacionais, morar numa vila rural e conviver com Salinger não foi fácil para Claire e o casamento teve algumas rupturas, quase chegando ao fim em pouco tempo. Mas prosseguiam juntos.
Depois do sucesso de Apanhador e Nove Estórias, que ainda continuavam vendendo bem, são as novas histórias que ajudaram também a estabelecer definitivamente Salinger como um dos maiores escritores americanos. No mesmo nível de Hemingway ou Fitzgerald, para alguns críticos. Essas histórias, quase novelas ou pequenos romances, são profundamente místicas ou espiritualizadas (baseadas na filosofia vedântica que Salinger abraçara havia tempos) e nem sempre eram imediatamente aceitas pelos editores, motivo de alguns conflitos entre Salinger e eles. Elas são: Franny & Zooey, que consiste de duas novelas curtas, Franny e Zooey; e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymour, uma Introdução, que também reúne duas novelas. Especialmente ao escrever Seymor, uma Introdução, Slaweski chama nossa atenção para o fato de que Salinger via-se agora, como um "escritor de Deus" e sentia-se obrigado a compartilhar com os leitores a beleza de sua própria revelação pessoal.
Em 1960 Salinger torna-se pai pela segunda vez, com o nascimento de Matthew Robert. E como Peggy, foi muito amado pelo pai. Mas o casamento com Claire, que já não vinha bem terminou em divórcio em 1967, embora os dois continuassem morando na propriedade rural, mas em casas diferentes. Dois anos antes, em 1965, The New York publica a última novela dele: Hapworth 16, 1924, que não agradou quase a ninguém, por ser “altamente ilegível”. Em seguida, temos vários episódios que contribuíram cada vez mais para a reclusão do escritor, brigas em tribunais, o assassinato de John Lennon, edições piratas de seus contos mais famosos e até mesmo uma “continuação sueca” de o Apanhador sessenta anos depois, uma fraude. E também mais dois relacionamentos amorosos: o terceiro, com uma jovem escritora foi um fiasco completo. Depois casa-se com Collen, com quem viveu até os últimos dias.
Salinger morreu em 27 de janeiro de 2010 e a notícia foi veiculada por todos os meios de comunicação nos quatro cantos do planeta, da mesma forma que costuma acontecer, p. e., quando morre uma celebridade hollywoodiana. O Apanhador voltou às livrarias americanas e novamente vendeu milhões de exemplares. Esgotaram-se também seus outros livros.
No final da biografia há várias páginas de notas, mas especialmente vinte fotos excepcionais, em p&b, da Nova York dos tempos de Jerome David Salinger e Holden Caulfield.
Biografia excepcionalmente bem escrita e informativa acerca de um escritor excepcionalmente talentoso. E igualmente recluso.