Dona Rosita é um texto que se expande e se beatifica na medida em que insiste na sua simplicidade. Não há sátiras ou críticas sociais, o drama é pouco acentuado, o humor é algo inocente e os sentimentos não se desabrocham com a virulência de uma torrente intempestiva conforme a finada Stürm und Dräng. A linguagem é coloquial, nada postiça; os diálogos não são loquazes, antes abrindo espaço para a troca entre personagens. Personagens, estes, que são simples, honestos, com conflitos cotidianos, discussões corriqueiras e gostos modestos. Não são autores de grandes atos nem as vítimas de terríveis sofrimentos. E, no entanto, com toda essa forma amena, minimalista, com ares bucólicos, uma burguesia pincelada pelas cores calmas de Monet, a dor recôndita, sutil, apenas aludida, se alastra feito fogo em cada linha, cada palavra, cada gota de tinta desta pequena tragédia, petit tragédie. Rosita termina solitária, reservada, pouco afeita aos melodramas dos sentimentos. Sua tia não cessa de lamentar o abandono da sobrinha por parte de seu noivo vigarista. A ama segue no seu bom humor, mas sempre com as pontadas solenes de tristeza velada, a sua "ferida aberta", conforme a imagem invocada pela própria. E se se pensa que este terceiro ato não estava anunciado, que sua mudança é brusca, não se prestou atenção, pois o poema que atravessa os três atos revela prognosticamente - o famoso "foreshadow - a situação de Rosita. A flor de sua tragédia só desabrocha ao cair da noite - flor torcida e retorcida pela vida até perder em baça alvura sua rubra coloração. Monotemática, a obra de García Lorca se dá desde a primeira página em derredor do furo, do buraco, da falta enorme por consumir e eventualmente queimar o texto inteiro. Não surpreende que Drummond tenha se interessado em traduzir suas obras, ambos são a viva cara um do outro! Melancólicos poetas da falta, perdidos escritores a se lamentarem em seu não-ser. Que não se espere as afobações do vão entretenimento e sim as altas paragens do sofrimento celestial, divino, e por isso mesmo humano - demasiado humano.