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    Perdido Street Station -

    China Mieville

    Pan Books
    2011
    868 páginas
    1d 4h 56m
    ISBN-13: 9780330534239
    4.4
    53 avaliações
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    Resenhas (7)Ver mais
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa16/03/2010Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Novas esquisitices da fantasia

    "Perdido Street Station", de 2000, é o paradigma da New Weird, a primeira obra a expressar inteiramente os traços desse subgênero tais como definidos por Jeff e Ann VanderMeer no prefácio da antologia "New Weird" da Tachyon. Primeiro seria uma urban fiction, expressão cuja tradução ingênua por “ficção urbana” (como se usa no Brasil, em contraste com “ficção regional” ligada ao mundo rural) é enganosa. Em inglês a expressão evoca o lado obscuro das cidades, o submundo da marginalidade, da violência e da prostituição: um subgênero literário afim ao rap e ao funk que nasceu dos guetos negros e seria mais apropriadamente chamado em português de “ficção das ruas”. Segundo, seria uma ficção ambientada em um “mundo secundário” – assim como a chamada alta fantasia de Tolkien e seguidores, se desenrolaria em um mundo mítico construído na imaginação, em contraste com um evento ou elemento fantástico inserido em um cenário de resto realista (como, digamos, Drácula na Inglaterra vitoriana). Mas ao contrário da alta fantasia tradicional, o New Weird repudiaria a idealização romântica para explorar um mundo “realista” no sentido de refletir, ainda que num prisma fantástico, as contradições, as incertezas, os conflitos sociais e a corrupção do mundo industrial moderno tal como costuma ser retratado pela ficção realista. Também diferentemente de Tolkien, faz uso de elementos de ficção científica. Essa caracterização claramente baseou-se no que Miéville fez neste livro e em suas sequências. Seu propósito explícito é criar uma literatura de fantasia que rompa com o modelo de "O Senhor dos Anéis", que considera alienante e reacionário. A construção do universo é muito curiosa. O mundo imaginário onde se passa essa e outras tramas de Miéville, chamado Bas-Lag (talvez por ter muito de bas-fond), lembra mais a arbitrariedade de cenários de RPGs como Dungeons & Dragons, que combinam todo tipo de entidades bizarras sem se preocupar com consistência narrativa, histórica ou simbólica, do que a complexidade bem-comportada da Terra Média de Tolkien, onde tudo é mais ou menos inspirado em mitos pagãos ou cristãos, tem uma razão de ser e se encaixa em um grande drama divino. No cenário do romance, a cidade de Nova Crobuzon, os humanos parecem ser a maioria, mas pelo menos quatro outras espécies parecem ser suficientemente numerosas para possuir seus próprios guetos: as khepri, que têm corpo de mulher, mas cuja cabeça é um grande escaravelho, os vodyanoi, seres anfíbios algo semelhantes a grandes rãs, os cactacae, que são cactos ambulantes de forma vagamente humana e os garuda, seres alados semelhantes a grandes águias com corpos humanoides. Muitas outras, descritas ou apenas sugeridas, estão presentes em menores números na própria cidade ou em outras partes desse mundo e algumas são poderosas para e têm papel importante na trama. Muitas dessas espécies aludem a mitos, lendas ou figuras da literatura fantástica: Khepri era um deus egípcio com cabeça de escaravelho, os vodyanoi eram espíritos aquáticos do folclore eslavo e Garuda um gigantesco e benévolo deus-ave indiano. Mas a atitude de Miéville em relação a essas fontes é, nas palavras dele mesmo, “pirataria filisteia”. As características de cada espécie são desenvolvidas por sua imaginação, de maneira minuciosa e bastante original, mas sem o menor respeito pela história de seu simbolismo, simplesmente “saqueado” da fonte original. As khepri, por exemplo, nada têm a ver com o deus egípcio do nascer do Sol e do renascimento: vivem em colônias e fazem suas acomodações e suas obras de arte com o próprio muco que segregam e convivem com machos que são simplesmente grandes escaravelhos sem inteligência. Habitam guetos de Nova Crobuzon como sobreviventes de um Holocausto meio esquecido que aniquilou sua espécie em seu continente natal. Não se trata de um mundo pseudomedieval de espada e magia, como os de Tolkien, C. S. Lewis, Robert Howard e outros autores mais conhecidos do gênero. Nova Crobuzon é uma cidade industrial, uma mistura sombria, corrupta do Sprawl de William Gibson com Gotham City e a Londres vitoriana. Há fábricas e máquinas a vapor, há robôs com cérebros mecânicos e há muitos humanos “refeitos”, com partes do corpo distorcidas, substituídas ou complementadas por implantes de partes de animais ou próteses mecânicas a vapor. Há trens suspensos e zepelins armados com canhões, bem como armas equivalentes a bombas atômicas, mas as armas mais usuais são mosquetes e pistolas de pólvora de um só tiro. E há também magia, que não tem caráter sobrenatural nem é monopólio de místicos, mas uma força a ser estudada e manipulada por cientistas que combinam caldeiras, pistões e feitiços em recursos equivalentes a computadores e microscópios eletrônicos. Essa mistura tem um resultado paradoxal: passível de ser apreendida e usada pela razão científica, a magia torna-se uma força natural a mais, embora possibilite efeitos bizarros. Ao perder o caráter inexplicável e maravilhoso, deixa de ser propriamente “mágica”. Se certas histórias apresentadas como ficção científica, como Star Wars, são no fundo fantasia disfarçada, este romance de fantasia é ficção científica disfarçada – ficção científica em um universo com leis bem diferentes das que conhecemos, entenda-se bem. Mesmo assim, cada um desses detalhes é, em si mesmo, instigante e bem elaborado. O problema é que o todo resulta sobrecarregado e pouco convincente. É uma colcha feita de retalhos muito interessantes, mas nem sempre bem costurados. O autor vê na complexidade um valor em si mesmo. Segundo escreveu Miéville em um artigo, “Histórias, leis, culturas, estéticas – mundos – são colossais e colossalmente complexos. Não há como contar a história de um mundo todo. Não importa o quão detalhada seja sua linha do tempo, ou cuidadosamente ilustrado seu bestiário, não há como explicar tudo. (...). Sem problemas. Na verdade, isso é bom – é choque cultural. Dando certo, isto comunica que há um mundo além do livro, no qual ocorre a história, em vez de uma história com alguns acessórios de fantasia jogados dentro”. Em outra passagem, defende: “É paradoxal tentar descrever um mundo que seja simultaneamente convincente e totalmente fantástico. Mas uma idéia une ambos os impulsos: o reconhecimento de que as coisas não são certinhas e arrumadinhas ou monolíticas, mas complexas e contraditórias, possíveis, constantemente surpreendentes e muitíssimo mais interessantes em virtude disto. Isto poderia descrever a melhor e mais estranha fantasia, bem como o mais duro retrato da realidade. É por isto que Kafka é um realista, e é por isto que os dois jeitos são possíveis.” A proposta soa fascinante, mas na prática se revela excessivamente ambiciosa. Tal como descrita no romance, a complexidade de Bas-Lag não aparenta a realidade intrincada de uma realidade vasta e exótica como a da história de uma grande civilização do passado, nem a profundidade de um fantástico espontaneamente rico e contraditório como, digamos, a mitologia indiana. Parece-se, isso sim, com uma colagem tão artificial e arbitrária quanto os seus personagens “refeitos”. Elementos de realidades vitorianas e modernas são costurados com outros oriundos da ficção científica e da literatura de horror e fantasia como para exibir criatividade e buscar efeitos um tanto maneiristas de choque e estranheza. As coisas são como são em seu mundo não por alguma forte razão lógica ou simbólica, mas para surpreender o leitor e, se possível, chocá-lo. Falta necessidade e organicidade, tanto ao cenário quanto aos conflitos e à trama que nele se desenvolvem. Embora Miéville diga admirar o caráter contraditório e surpreendente da realidade, descreve seus cenários sempre sob um prisma de monótona desesperança, corrupção e decadência, com uma adjetivação carregada e repetitiva – “fedorento”, “encardido”, “podre”. Também recorre com demasiada frequência ao Deus ex Machina, ou seja, à intervenção inesperada de forças externas à lógica do enredo, para criar problemas ou para resolvê-los. Personagens são acompanhados e abandonados de maneira casual e os desenlaces são anticlimáticos e abruptos. A trama tem algo da aleatoriedade improvisada de um role-playing game, passatempo do qual o autor é adepto. Três personagens secundários são apresentados como típicos “aventureiros” de RPG, em busca de “ouro e experiência”. É demasiado visível a mão pesada do autor a forçar situações violentas ou comoventes. Alguns leitores apontaram o caráter “vitoriano” do enredo, com muita razão. Há muita coisa que seria inconcebível em uma obra propriamente vitoriana, tais como sexo “pervertido” entre diferentes espécies ou com prostitutas “refeitas”, mas é curioso como o enredo por vezes soa puritano. Apesar de o autor descrever uma lei corrupta e uma moral hipócrita, as misérias dos personagens sempre são consequências de alguma transgressão tola, como nos velhos contos moralizantes do século XIX ou nos filmes-catástrofe de Hollywood, onde a desgraça dos personagens, mesmo quando provocada forças cegas da natureza, aparece sempre como punição selvagem, mas fundamentalmente justa, de um deslize qualquer. Se os personagens caminhassem para um destino cruel ao qual não conseguem fugir, seriam trágicos, mas se comportam como joguetes do acaso com metas incertas e acabam por ser simplesmente patéticos. Se o autor pretendeu fugir ao maniqueísmo e à idealização da fantasia tradicional, seu romance também não mostrou tão grande novidade nesses aspectos. Os protagonistas são humanos (ou coisa parecida) e têm defeitos, mas são fundamentalmente simpáticos. Há personagens importantes que se mostram amorais e imprevisíveis – exatamente aqueles que desempenham o papel de Deus ex Machina –, mas os poderes políticos e econômicos de Nova Crobuzon são inequívocamente maus, corruptos e ao mesmo tempo extremamente capazes, agindo com inteligência, eficiência e perfeita coordenação contra uma subversão ingênua, amadora e impotente. É como se o autor quisesse nos convencer de que o poder é odioso, mas desafiá-lo é fútil. Por ideologia? Obviamente, não: o autor é literalmente um marxista de carteirinha. Além de ser filiado ao Socialist Workers Party, o principal partido trotskista britânico, é autor de "Between Equal Rights: A Marxist Theory of International Law" (2005), 375 páginas de respeitável crítica erudita do direito internacional, tal como se desenvolveu desde o século XVI, à luz do materialismo histórico marxista. O problema é que, mesmo sendo revolucionário como teórico, é conservador em sua prática ficcional, presa a esquemas lineares ação/consequência, bem/mal, ordem/caos, crime/castigo que só parecem complexos pelo abuso barroco da multiplicação, cruzamento e fracionamento. Esta obra é um prato transbordante de cheio para o leitor que gosta da fantasia pela fantasia, que devaneia sobre cenas surreais e inesquecíveis, mundos estranhos, espécies fantásticas e teorias mágico-científicas como um fim em si mesmo. Também é fascinante como fonte de inspiração e novas ideias para quem busca inspiração para suas próprias obras de fantasia. Não é, porém, uma obra atraente para quem não for fã de carteirinha da literatura de fantasia. Neste romance, Miéville mostrou uma imaginação brilhante, mas não uma grande habilidade como escritor.

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