O negócio do michê - A prostituição viril em São Paulo

    Néstor Perlongher

    Fundação Perseu Abramo
    2008
    271 páginas
    9h 2m
    ISBN-13: 9788576430575
    Português Brasileiro

    Desde sua primeira edição, em 1987, O negócio do michê se tornou uma leitura de referência para aquelas e aqueles que se interessam pelas discussões sobre o desejo, as urbanidades, as sexualidades, as corporalidades e o mercado do sexo. Néstor Perlongher leva as/os leitoras/res aos bares, saunas e ruas de uma São Paulo noturna e apaixonadamente transgressiva, onde rapazes comercializam sexo, amam, brigam, negociam códigos e, por vezes, desejam o indesejável. Construído a partir de uma intensa etnografia e de uma densa análise teórica, O negócio do michê tem hoje a marca dos clássicos e, como tal, guarda uma contemporaneidade surpreendente.

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    Locimar Massalai05/09/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Demais!!!!!! Pela segunda vez. Vivi na pele esta sensação nas avenidas e guetos de sampa na década de 1990

    Atarantado pelos automóveis, meus olhos são varados pelo neon, degusto minhas doses de cinismo nos balcões molhados pelo vácuo. As mariconas fustigam meu corpo com olhares sórdidos, cada olhada fere fundo e cria crostas que se endurecem; até a noite acabar estes olhares superpostos me tornarão imune. Avenida São Luís e seus anjos turvos, supermarketing de pupilas frenéticas, sob as árvores o poder acaricia e intumesce caralhos lânguidos. Há pelos corpos em fila uma náusea imprecisa, eu vejo uma sinfonia de cusparadas e aprendo acordes sombrios com os quais devo ornar minhas pernas metidas num blue-jeans rasgado. Meu camarada uns passos à frente negocia sua boca de estátua grega perfumada por conhaque e baforadas com um pederasta untuoso que pilota uma reluzente máquina. Nós viemos do subúrbio numa progressão eufórica, bebemos várias cachaças & nossos corações acossados pela média preferem a autocorrosão, mas é assim que a cidade nos gosta. Eu vejo funcionários públicos levemente maquiados. Eu vejo policiais que me tolhem os passos com ameaças de sevícias. Eu vejo bichinhas evoluírem num frenesi azeitado por anfetaminas e um desespero dissimulado. As mariconas não as buscam,por isso elas exorcizam a noite com gritos e vêm nos outros rapazes um “frisson” de inexistentes limusines. O poder pelas esquinas gargalha. Atarantado pelo sono, embarco ríspido num carro. Logo mais, de madrugada,ejacularei catarro, voltarei de ônibus com meu amigo, adentraremos em silêncio o subúrbio sabendo que algo em nós foi destroçado. Poesia publicada no boletim “O Corpo” nº 6″, São Paulo, 1984, assinado por F.

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