Um excelente trabalho de Luciano Gruppi, dirigente histórico do Partido Comunista Italiano, para elucidar um conceito central em toda a obra do filósofo italiano Antonio Gramsci: o conceito de hegemonia. Gruppi contribui para reaproximar a obra de Gramsci de Lenin – algo que é bastante negligenciado – e de como o marxista italiano expandiu o conceito leninista de hegemonia contido no clássico “Que Fazer?”.
Gramsci sistematizou uma ciência marxista da ação política tratando do poder do consenso como fundamental aspecto do processo de dominação e expansão da classe burguesa ao descartar as análises pautadas pelo determinismo econômico e mecânico. O Estado não é apenas um aparelho de dominação de classe, mas tem uma complexidade muito maior, sendo uma unidade contraditória entre a coerção – violência repressiva –, a coesão – dominação ideológica – e a necessidade de reprodução do capital em geral. Ao colocar a sociedade civil em ênfase para a compreensão do desenvolvimento da sociedade capitalista, Gramsci dá ao marxismo uma nova abordagem sobre a mesma, colocando-a na ideia de superestrutura e não mais no conceito de infraestrutura como nas análises de Marx. Gramsci atribuiu ao Estado o papel de estabelecer um conceito burguês único da realidade, a hegemonia, e deu ao mesmo um papel mais extenso para a análise da sociedade capitalista, o chamado Estado ampliado. Nesse sentido, o Estado inclui a hegemonia burguesa na superestrutura.
Gramsci representa um avanço nas análises do marxismo ao colocar a discussão sobre a política e superestrutura como centrais na discussão sobre as sociedades capitalistas – sem deixar de lado o viés econômico – e desenvolve uma teoria de ação política em que o conflito político é o cerne do desenvolvimento histórico das sociedades capitalistas no Ocidente. Sempre preocupado com a ação, a práxis, Gruppi mostra como Gramsci procurou entender o porquê das revoluções socialistas não terem ocorrido nos países mais industrializados no Ocidente, que reuniam condições históricas e sociais para isto, e sim em um dos países mais atrasados do mundo e com uma sociedade civil pouco desenvolvida, com um capitalismo pouco desenvolvido. A partir disso, é necessário explorar as singularidades e a força da sociedade civil no Ocidente, estabelecendo um modelo de revolução socialista calcado na questão nacional. Assim, a contra-hegemonia proletária tem de ser desenvolvida nas instituições culturais da sociedade civil através da criação de um partido de massas e da superação da ideologia da classe dominante divulgada pelos aparelhos privados de hegemonia.