As duas vidas de Audrey Rose -

    Frank de Fellita

    Círculo do Livro
    1975
    410 páginas
    13h 40m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Janice e Bill Templeton são um casal que vive feliz com sua filha única, a bem-comportada pré-adolescente Ivy. Essa imagem de família feliz começa a ser decomposta com a chegada do estranho Elliot Hoover. Depois de suspeitas de que ele pretende molestar Ivy, Hoover tenta convencer aos pais que seu interesse (quase uma obsessão) pela garota é apenas paternal. Para ele, a menina é a reencarnação de sua filha, falecida em um terrível acidente, quando ela ficou presa no automóvel e morreu entre as chamas. Coisas estranhas começam a acontecer a partir desse momento e a vida de Bill e Janice com sua Ivy jamais voltará a ser como antes.

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    André Vieira16/02/2026Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Sabe aquele livro maravilhoso, bem escrito, altamente impactante, em que o leitor vivencia os ambientes, os cenários, sente as angústias e até cria empatia por personagens que talvez não merecessem? Pois bem… é exatamente esse o caso de As Duas Vidas de Audrey Rose. Fico feliz por ter iniciado o ano com leituras tão fortes — este é o sétimo livro até agora, e todos foram realmente muito bons. Quando comprei esta obra, esperava um terror intenso, principalmente porque havia amado O Demônio de Gólgota, do mesmo autor. Minhas expectativas foram atendidas — mas também superadas de uma forma que eu não imaginava. Logo no início, conhecemos a família Templeton: Bill, Janice e sua filha Ivy. Uma família perfeita, dentro dos moldes da época. Desde as primeiras páginas, sentimos a angústia e o desespero dos pais diante de um homem que passa a perseguir a menina no trajeto da escola. A tensão é crescente. Bill chega a procurar a polícia, pois também passa a ser seguido, inclusive em sua vida profissional. Pouco depois, o perseguidor revela sua identidade (algo que não é spoiler, pois consta em sinopses): Elliot Hoover. Ele afirma que sua esposa e filha morreram em um acidente de carro e que sua filha, Audrey Rose, teria reencarnado no corpo de Ivy. É o choque absoluto para o casal. A partir daí, os acontecimentos tornam-se sinistros e agonizantes. Há uma sensação constante de arrepio. Porém, quando menos esperamos, o livro muda de cenário e entra no campo jurídico — o que me lembrou muito Conte-Me Seus Sonhos, de Sidney Sheldon. Essa virada poderia ter sido um risco, mas para mim foi genial. A ambientação do julgamento é extraordinária. É como se estivéssemos presentes ali, acompanhando cada depoimento, cada argumento, cada tensão no ar. E aqui está a grande sacada do autor: o verdadeiro juiz e os verdadeiros jurados somos nós, leitores. A defesa, a acusação, os profissionais da saúde, as autoridades religiosas, o público, a imprensa — todos constroem um debate que ultrapassa o tribunal. Não é apenas um julgamento jurídico, é um julgamento moral e existencial. O copyright é de 1975, e a história se passa no final dos anos 60 e início dos 70. A atmosfera da época é muito presente, inclusive na dinâmica do casamento: o homem como provedor e a mulher dedicada ao lar. É interessante como conseguimos sentir empatia por diversos personagens — até mesmo por aqueles com quem não concordamos. É perturbador perceber que a empatia não implica absolvição. Um detalhe curioso desta edição antiga foi o uso frequente de mesóclise, próclise e ênclise — aquelas formas verbais que víamos nas tabelas da escola e quase nunca encontrávamos em livros atuais. Esse aspecto reforçou ainda mais a ambientação da época e me fez lembrar o quanto a língua portuguesa pode ser rica e elegante. Comprei esperando apenas terror; recebi também mistério, suspense, drama psicológico e um intenso debate sobre fé, ciência e responsabilidade. E o final… ah, o final. O autor, de maneira inteligente, não entrega respostas prontas. Deixa que o leitor julgue. Hoover é culpado ou não? Ele foi o causador da tragédia ou apenas um homem devastado pela própria perda? Saí da leitura revoltado. E isso, para mim, é sinal de uma obra poderosa. Mais um livro de Fellita que entrou para minha lista de favoritos. Um final triste que me pegou de jeito 😢

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