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    O paciente, o terapeuta e o Estado -

    Elisabeth Roudinesco

    Zahar
    0
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-10: 8571108293
    Português Brasileiro
    3.4
    14 avaliações
    Leram27Lendo5Querem61Relendo0Abandonos1Resenhas1
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    Para coibir a prática de charlatanismo por parte dos terapeutas, o Estado francês resolveu reagir, com o que ficou conhecido como "emenda Accoyer" à Constituição. Numa "parceria" polêmica, cabe agora às instituições PSI – que abrigam psiquiatras, psicanalistas, psicólogos e psicoterapeutas – informar ao Estado quais os profissionais legalmente habilitados a exercer o ofício. Mas o que é um charlatão e por que um Estado deveria se arvorar a saber quem tem e quem não tem direito de se ocupar do sofrimento da alma? Partindo desse ponto, Elisabeth Roudinesco coloca em pauta temas cruciais tanto para o universo PSI quanto para a cultura contemporânea. Seja na defesa intransigente de princípios como a "laicidade" da psicanálise, seja na investida inflexível contra a "medicalização" da saúde mental ou as "avaliações técnicas" em voga nos círculos acadêmicos (idem no Brasil), a autora se pergunta: Quem seria responsável por avalizar os profissionais? Indicado por quem? De que formação ou tendência? O alinhamento da psicanálise a outras formas de tratamento seria uma atitude científica, ou mesmo sensata? Embora parta de um fato político localizado e de uma preocupação supostamente restrita às profissões PSI, este livro ultrapassa essas fronteiras, penetrando em território bem mais amplo: a discussão do papel do Estado no mundo globalizado.

    Resenhas (1)Ver mais
    P Henryque picture
    P Henryque21/06/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Na obra O Paciente, o Terapeuta e o Estado, Elisabeth Roudinesco se debruça sobre os dilemas e paradoxos enfrentados pelas práticas terapêuticas no mundo contemporâneo. A autora, reconhecida por seu profundo trabalho na história da psicanálise, expõe com clareza e contundência como a modernidade tem tensionado o campo da saúde mental, transformando o sofrimento humano em objeto de padronização, estatística e consumo. O ponto de partida da análise de Roudinesco é a constatação de que vivemos uma época marcada pela celeridade e pela busca de soluções imediatas, onde o tempo da escuta e do acolhimento psíquico parece não caber mais. A cultura da produtividade e da performance, típica do neoliberalismo, se infiltra até mesmo na relação terapêutica, exigindo resultados rápidos, sintomas atenuados e sujeitos funcionais. Assim, o processo terapêutico — por natureza lento, singular e subjetivo — é muitas vezes substituído por diagnósticos apressados e tratamentos baseados em protocolos. Um dos eixos centrais da crítica da autora é a banalização do diagnóstico. A multiplicação de categorias nos manuais psiquiátricos (como o DSM) contribui para transformar manifestações humanas legítimas — como o luto, a angústia, a frustração e o cansaço — em patologias. Esse processo de psicopatologização da vida cotidiana serve mais aos interesses da indústria farmacêutica e da lógica biomédica do que à escuta clínica real e comprometida. Consequência direta disso é a medicalização excessiva, denunciada por Roudinesco como um modo de silenciar o sofrimento ao invés de escutá-lo. Em vez de promover o diálogo, a escuta e a elaboração simbólica, oferta-se o remédio como forma de “resolver” o que, na verdade, é complexo, relacional e, por vezes, inerente à existência humana. O remédio, nesse contexto, aparece como um agente de normatização. A obra também problematiza o papel do Estado, que deixa de ser garantidor do acesso à saúde mental para se tornar um regulador, controlador e, por vezes, deslegitimador das práticas terapêuticas não alinhadas ao paradigma biomédico. A psicanálise, em particular, sofre os efeitos desse deslocamento, sendo frequentemente acusada de ineficaz por não se alinhar aos critérios da objetividade técnica e da evidência quantitativa. Roudinesco propõe, em oposição a essa tendência, uma defesa do tempo da subjetividade, do espaço da escuta e da ética do cuidado. O terapeuta, nesse cenário, torna-se um resistente — alguém que aposta na singularidade do sujeito contra a massificação dos sintomas e a impessoalidade dos algoritmos diagnósticos.

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    Elisabeth Roudinesco

    Historiadora e psicanalista francesa, é professora e pesquisadora da Paris VII. Intelectual de renome com presença ativa em publicações científicas e na mídia, possui vasta obra traduzida em trinta idiomas.

    26 Livros
    49 Seguidores

    Elisabeth Roudinesco