Qual a arte que você gostaria de ver no futuro? Pode não ser uma questão muito frequente no cotidiano, mas coletivamente, o mesmo não se aplica. As salas de cinema, por exemplo, sempre estiveram no risco de acabar - a última dessas crises é recente, com a pandemia. Se elas acabassem mesmo, como ficariam não só os frequentadores individuais, mas o imaginário social? Por mais democrático que os meios audiovisuais estejam hoje com a internet e o streaming, ainda há um certo apego (inclusive meu rs) pela experiência da sala de cinema, coletiva e intimista ao mesmo tempo. Mas ao mesmo tempo em que não queremos perder essas experiências, também não queremos aproveitar novas. Uma arte nova desmerecida por muito tempo foram os quadrinhos, especialmente nos EUA, e esse conceito será trazido para o Brasil, sendo essa um dos pontos do livro A Guerra dos Gibis, do jornalista e pesquisador Gonçalo Junior.
Fã de quadrinhos, Gonçalo sempre publicou a respeito do tema, e Guerra dos Gibis é seu mais famoso trabalho, e por bons motivos. Aqui, o autor irá se debruçar sobre a formação do mercado editorial brasileiro de quadrinhos, cujo marco fundador é 1933, quando Adolfo Aizen, empregado do jornal O Globo e subordinado direto do dono, Roberto Marinho, viajou para os EUA e descobriu o mundo dos comics, um vasto sucesso de público nas revistas e nos jornais. De volta ao Brasil, saiu do jornal para fundar o Suplemento Juvenil, que trouxe vários personagens de tiras populares nos Estados Unidos, como Buck Rogers, Flash Gordon, Tarzan, etc. O Suplemento Juvenil foi tão bem-sucedido que consolidou logo de cara o nome de Adolfo Aizen na imprensa, e este continuava expandindo os negócios e criou, em 1945, a Editora Brasil-América Limitada, mais conhecida pelo acrônimo Ebal. Marinho, inicialmente descrente do sucesso da empreitada, rapidamente se movimentou e criou O Globo Juvenil em 1937, como um rival. Depois de algumas edições, O Globo Juvenil mudou de nome para um mais comercial: Gibi. Como o suplemento tinha em suas páginas principalmente tiras e quadrinhos em geral, e devido ao grande sucesso do suplemento, o nome acabou pegando. E esse é só começo.
Através das páginas d'A Guerra dos Gibis, a escrita de Gonçalo Junior, elegante e rápida, mas nunca superficial, começa a se desenrolar e cativa rapidamente o leitor. No começo do livro, o embate entre Aizen e Marinho é puramente comercial, mas contornos mais profundos se adicionam a partir do advento da 2ª Guerra Mundial. Os quadrinhos foram grandemente afetados pela guerra (basta lembrar da primeira capa da revista do Capitão América), e ao mesmo tempo que ficavam ainda mais próximos da sociedade, começou a se criar um cerco moral àquela nova forma de narrar enredos que seria conhecida como 9ª arte. Esse pânico moral foi trazido para o Brasil no meio do Estado Novo por juristas, políticos moralistas, oportunistas, intelectuais reacionários, e até o Ministério da Educação entrou na jogada. Mas os quadrinhos não só continuavam crescendo entra a criançada como angariavam seus próprios defensores entre editores, leitores, intelectuais da esquerda e da direita (!!), empresários, artistas... cada vez mais, os quadrinhos eram parte do debate público, por mais incipiente e polarizador que pudesse ser. Ali, era apenas o começo de uma arte que poucos entendiam, mas que todos estavam imersos. Para o bem ou para o mal. O debate artístico refletia inclusive o nacionalismos em diferentes formas - nos anos 40, alguns defendiam a ideia de proteger as crianças brasileiras da influência estadunidense. No começo dos anos 60, os próprios artistas se apropriaram do debate, mas agora para debater uma cota para a produção brasileira, esmagada entre os títulos estrangeiros.
Passear pelos tempos das revistas grampeadas e de heróis pulp aos super heróis pode trazer reflexões interessantes. A Guerra dos Gibis pode ser lida como uma jornada do herói das novas gerações de então e de uma parcela dos artistas, como um autêntico filme da Marvel. Mas vi uma linha de leitura mais particular nesse surgimento.
É falso pensar que as crianças são "o futuro", assim, vagamente. Elas são o produto da mentalidade, ou de suas crises, no presente, resultantes dos processos do passado. Uma geração define muito pouco o que é ou que quer ser, e às vezes, as pessoas que vieram antes querem desfrutar de um controle ainda maior. Ainda que não compusesse a totalidade, muita da retórica moralistas que cercava os quadrinhos vinha do medo dos pais do que seus filhos poderiam estar lendo, o que já denota o medo da falta de controle e entendimento a respeito dessa nova mídia que surgia. Mas, ao mesmo tempo, entendemos que os quadrinhos podiam ser tanto transgressores quanto agentes da mentalidade vigente. Nos anos 50, a Ebal publicava fascículos da Bíblia em quadrinhos como uma forma de tranquilizar os mais conservadores, o que já denota que, ainda que vitoriosos, os editores precisaram se adaptar à velha ordem para melhor aceitação de seus produtos. Mas existiam obras mais ousadas. Nessa mesma época, começava a fazer sucessos folhetos pornográficos de um tal Carlos Zéfiro (um pseudônimo). Esses folhetos, apelidados de catecismos (muito edgy esse Zéfiro viu), eram distribuídos clandestinamente no Rio de Janeiro em um arriscado esquema de vendas e com direito até a um código de compra: depois que o cliente pedia, na surdina, pelos catecismos, precisava comprar um jornal ou uma revista juntos, para esconder os papéis do olho público. O esforço compensava: milhares e milhares de cópias vendidas. O público mais assíduo? Homens adultos, vários já pais de família. O falso moralismo visto lá atrás seria trágico se não fosse cômico.
Mesmo com as concessões que mencionei antes, eventualmente os quadrinhos venceram. As revistas juntas chegavam em tiragens de milhões, eram excepcionalmente baratas por isso, e a partir dos anos 60, já estavam totalmente integradas ao dia a dia e a cultura brasileira, ainda que os ressentimentos permanecessem - em quase todos os casos, como um asco individual, um esnobe aqui e ali. E conforme aquelas crianças dos anos 30 até os anos 50 envelheciam, esse interesse infantil estava presente seja como tema de pesquisa, como arte, e até como colecionismo. Obviamente, eu não sou uma delas. Mas ver essa nova forma de arte surgir é comovente - especialmente no epílogo, com o destino dos retratados à lá filme de época. Me ajuda a seguir em frente com o que pode não fazer sentido pra mais ninguém, mas faz pra mim. E talvez para mais outras pessoas.
*A obra, editada pela Companhia das Letras, teve somente duas tiragens desde 2004 e se encontra esgotadíssima quando escrevo essa resenha. O livro é fartamente ilustrado e ainda contém duas folhas pranchas com capas das revistas da época - num período pré Guia dos Quadrinhos, um feito impressionante. Há um índice onomástico para auxílio na pesquisa e um apêndice com os códigos de ética e legislações dos quadrinhos até 1965, incluindo o Comic's Code Authority. Por fim, há a riquíssima bibliografia e as fontes históricas, que incluem entrevistas e depoimentos, tanto ao autor quanto a terceiros, bibliografia acadêmica, e coleções de fanzines, periódicos e jornais, que também serviram de fontes primárias.