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    Mulher e Educação: A paixão pelo possível -

    Jane Soares de Almeida

    Unesp
    1998
    225 páginas
    7h 30m
    ISBN-13: 85-7139-216-1
    Português Brasileiro
    3.8
    4 avaliações
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    As mulheres não só reivindicaram, como forçaram sua inserção nese campo profissional e conseguiram ocupá-lo em poucas décadas. É certo que a essa ocupação aliou-se uma série de fatores externos, como a necessidade de mão-de-obra, a queda do poder aquisitivo da classe média, a expansão do número de escolas e outros, mas não podemos nos esquecer de que os homens, antes de mais nada, sempre quiseram as mulheres dentro dos lares...

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    Graciele 23/07/2013Resenhou um livro
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    Mulher e Educação

    GRACIELE LEHNEN BIJEGA O livro Mulher e Educação: a Paixão pelo Possível de Jane Soares de Almeida, trata de um resgate da história da professora brasileira e também da feminilização do magistério. Do papel da mulher como pioneira da educação escolarizada do Brasil bem como a sua luta para ocupar este espaço. Ideia muito errônea é a de que essa esfera pública foi concedida a mulher, esquecendo desta como sujeito histórico. Faz um estudo focado no estado de São Paulo, conta com relatos de três professoras da década de 30 e 40. No final do séc. XIX e nas primeiras décadas do séc. XX a mulher era estigmatizada com os atributos imaculados de pureza, sendo vista até de forma assexuada comparada com a Virgem da religião católica, carregada da moral cristã, seu dever era atribuir estes valores morais na sociedade. De forma bem oposta da visão do séc. XVII e XVI, onde a mulher era culpada do pecado, lascívia de forma inata. No Brasil a mulher no séc. XIX com a implantação da república, as duas Guerras mundiais, a urbanização-industrialização, carreta mudanças na mentalidade social começando a mulher a ter suas primeiras reivindicações e alertas em relação à dominação chegando a ter algumas conquistas. O termino do regime ditatorial com o golpe de Estado de 1937, e o final da Segunda Guerra Mundial, coincidiram, houve a retomada das ideias democráticas e a mulher que por necessidade acaba ocupando um lugar fora da esfera doméstica ( sendo este fato preponderante na Europa, devido os homens serem convocados para a guerra e há carência de mão de obra) contribuíram positivamente na mudança das representações culturais da imagem da mulher. A educação neste período do inicio do séc. XX também teve mudanças, oferecendo oportunidade à mulher. Mesmo que a Educação ofertada a mulher fosse dentro das aspirações masculinas, ainda assim era uma oportunidade.O magistério foi “concedido” a mulher, era visto como uma extensão do trabalho no lar, sendo aceitável socialmente que a mulher ocupasse este espaço, pois o ensino inicial já era vocação da mulher o cuidado, o se doar, a inculcação dos valores morais era seu dever. Mesmo com esta visão ainda assim, era uma forma de libertação econômica da mulher. O país agora era uma republica, a mulher deveria ser a esposa bem educada, culta, agradável socialmente, agora não apenas uma procriadora submissa. O conceito de gênero entendido como categoria cientifica é algo muito recente mundialmente e no Brasil mais ainda. Afinal o sexo é determinado biologicamente antes mesmo no nascimento do bebê, sendo que o gênero é constituído socialmente e historicamente em suas relações. Gênero não é a distinção entre os sexos e sim a relação construída entre eles, sendo esta relação uma relação de poder, onde pelo inatismo biológico e mulher é inferior biológica e intelectualmente. Estas configurações do poder se modificam de acordo com seu contexto, modo, ideal social, formando as significações. A aplicação do conceito de gênero acarreta a um não aceitamento destas diferenças desiguais postas, sendo que a superação desta diferença não é apenas permitir que a mulher assuma certas posições e decretar direitos, pois na sociedade capitalista as bases sempre serão desiguais. Na perspectiva feminista é a apropriação de pensamento critico que leva a consciência destas desigualdades, sendo abolidas somente quando for superada a divisão social. Este seguindo a ideologia marxista é criticado como uma utopia socialista, por se fundar nas bases igualitárias, e nossa sociedade sempre viveu no sistema capitalista que se funda nas bases desiguais. Mas é preciso ir além destas construções de relação de poder, desvelar estas relações para não aceitar passivamente esta neutralidade sexual generalizadora, já é um estopim. O estudo e produção sobre o gênero no Brasil é pouco, e os poucos são de autoria feminina, sendo que a disciplina de História é antiga e preponderantemente ocupada por homens, talvez esta seja a justificativa desta carência. A dificuldade de as mulheres terem acesso à educação e sua ausência nas instâncias de poder que decidem seus rumos talvez expliquem a sua exclusão da História da Educação. (ALMEIDA, 1998 p.51) Resgatar a história da mulher Brasileira foi algo difícil pelo analfabetismo feminino, pelos poucos diários que eram escritos e queimados, não preservados pelo recado de suas autoras, a mulher muitas vezes ignorada como sujeito histórico, a mulher por não ter acesso a educação restrita ao mundo doméstico ficava isolava da construção Histórica. A autora busca então grande parte de seu livro no relato de três professoras, ou seja, pelo depoimento das mesmas. Explicitando também que a linguagem oral é algo muito relativo, é feito do ponto de vista do narrador, as lembranças são sempre coletivas , na relação presente entre o narrador e quem o escuta, sempre haverá mais de uma interpretação. Sendo que a memória pode ser carregada de sentimentos, emoções, ideais próprios. Cabendo ao pesquisador não se envolver naquilo que esta escutando, sempre tendo o bom senso e o respeito ao outro. A educação no Brasil á partir do séc. XIX ficou restrita apenas a uma parcela restrita, apenas quem podia pagar professores particulares teria acesso a educação, esta educação destinada a mulher era muito diferenciada a do homem uma herança muito forte do império português , havia uma relevância maior a linguagem escrita e artística, ao cuidado com o lar, as boas maneiras, a geografia e história era muito ou nada ensinado, a matemática era esquecida. O magistério era antes ocupado pelos homens, à mulher não era permitido este espaço. No Brasil Republica a mulher começa a ocupar as Escolas Normais, logo após com a criação dos Grupos Escolares o espaço é ocupado na sua grande maioria pela mulher, onde a educação se torna massiva pela necessidade de educação o povo. A autora apresenta alguns conceitos dos estudos de Apple (1988, p. 15) este entende que a desvalorização do magistério ocorre por ser uma profissão que atende a população de baixa renda (as bases), diferente das profissões tecnológicas que irão atender as necessidades da população de renda alta, quando uma profissão tem como foco o povo, o sistema capitalista tende a desvaloriza-la .As profissões que são mais desvalorizadas em sua maioria são ocupadas por mulheres. A feminilização do magistério do final do séc. XIX e inicio do séc. XX, esta sim carregada da relação patriarcal da época, onde era necessário uma ampliação da educação, e esta profissão era aceitável para a mulher pois se tratava também de uma aptidão materna o cuidar o ensinar. E quando a mulher começou a ocupar este espaço, os homens que antes o dominavam na totalidade não aprovaram esta perda. Dizer que este espaço do magistério foi concedido a mulher auspiciosamente, é olhar apenas parcialmente este processo. Os ideais republicanos requeriam um povo instruído, a educação vista como a base para o desenvolvimento do país, portanto há o aumento das escolas, onde a mulher ocuparia o papel de redentora da nação. A preponderância da mulher na educação se deu pelo grande aumento das vagas, e pelo abandono dos homens neste campo profissional, sendo que este dois pontos são fatos, entre outros fatos, que acarretaram a feminilização do magistério. Não é apenas pelo conceito de gênero que devemos analisar a desvalorização e saída dos homens neste campo. Os homens que ocupavam este espaço o tinham como uma ocupação ocasional vista com prestigio social, requeria menos tempo, era a profissão secundária aliada à outra profissão como médico ou engenheiro entre tantas outras. Proporcionava visibilidade e influencia política. Quando as exigências de tornaram maiores os homens a abandonaram, pois não era mais possível esta conciliação. Mas a feminilização do magistério é um processo complexo e amplo foi um processo e não uma simples mudança. Não é apenas a desvalorização da profissão que causou inserção da mulher na educação vendo este campos de trabalho de forma pejorativa,vitima de um governo opressor sem possibilidade de desenvolvimento de um trabalho com qualidade e objetivo, e sim como a mulher ocupando uma esfera do mundo publico, um campo de trabalho onde ela antes não atuava ou poderia atuar somente de forma voluntária ou filantrópica para as que fossem da elite, sendo que as mulheres da elite eram ainda mais vetadas pois a mulher de baixa renda acabavam muitas vezes trabalhando por necessidade com a concessão do marido, na elite este espaço pertencia ao homem, sendo concedido a mulher apenas em necessidades extremas como viuvez ou a falência financeira da família paterna. O magistério foi uma oportunidade de libertação econômica e não submissão, escolha de se casar ou não, muitas vezes o casamento não era o ideal da mulher e sim uma necessidade imposta de modo coercitivo pela família. O magistério foi também um degrau para alcance do ensino secundário. Os ambientes escolares, os livros, estão impregnados de estereótipos sexuais, a representação da mulher nestes espaços tem sido feita de forma generalizadora e preconceituosa, a professora de roupas muito bem comportadas de óculos e cabelos presos impecavelmente, a dona de casa feliz geralmente na cozinha ou realizando um de seus dotes como costura, bordado, tricô... Obviamente brancas, mas não entrarei aqui na questão da raça e sim da mulher. Porque o homem que ocupou tanto espaço no magistério nunca esta representado neste ambiente, é proibido ao homem cuidar das crianças, ou arrumar a casa? Há muita critica a estes estereótipos na contemporaneidade, mas além de criticar é necessário que se aprofunde no papel da mulher, em sua identidade, como esta foi a protagonista primordial da educação escolarizada, se nos acorrentamos a esta critica, não que esta não seja importante para desvelar esta relação de poder, podemos nos esquecer de quem realmente foi a mulher na história, e que esta é sim um agente histórico, não apenas mergulhar nas mazelas machistas de nossas sociedade, mas romper e resgatar o valor da mulher, este valor não apenas como a redentora com inesgotável amabilidade,isto já se tem ouvido e muito, e sim a mulher com toda sua atividade, sua paixão, sua luta e primordial contribuição. Na segunda parte do livro a autora Jane Soares de Almeida explicita a dificuldade de fazer a coleta de dados em sua pesquisa e de estabelecer uma relação coerente entre estes dados coletados de fontes diversas. Que as fontes históricas que são escritas não estão estagnadas e imutáveis ali redigidas no papel, pois estão entrelaçadas a quem o escreveu, como, e quando foi escrita. Que há sempre a subjetividade encharcada de emoções, visão de mundo e contextualização, a autora faz uma nota de Morin que cito aqui: ...o que nós captamos do mundo não é o objeto menos nós, mas o objeto visto e observado , como produzido por nós. Nosso mundo faz parte da nossa visão do mundo, a qual por sua vez, faz parte do nosso mundo. Ou seja, o conhecimento de um objeto, por mais físico que seja, não pode estar dissociado de um sujeito cognoscente, enraizado numa cultura e numa história. (MORIN, 1989 p.39) Ou seja, é sempre difícil achar a coerência, pois a cada relato, a cada documento, a cada fonte cada qual será influenciada por quem a criou, portanto nunca é neutra. A fonte oral é a mais subjetiva, pois a lembrança de uma experiência é muito pessoal. A fonte escrita na maioria é uma das mais restritas as mulheres, mesmo sendo de autoria feminina esta poderá estar subjulgada a voz masculina. Os periódicos educacionais contemplando a representatividade somente ao homem neste espaço. Mas havia jornais femininos e estes foram de grande importância para a organização do movimento feminista mundialmente e no Brasil república, a industrialização, alterou a posição social da mulher, os jornais na luta contra este ideal de mulher republicano foi de grande valia, as mulheres começaram a ocupar o espaço público e reivindicar seus direitos, pois estes eram dirigidos pelas mulheres, havendo também homens que simpatizavam com a emancipação da mulher. Os jornais educacionais na área das escolas normais, escrito e lido por mulheres da área, que além de tratar de assuntos escolares como metodologias, questões pedagógicas, fornecerem material didático... Também abordava temas políticos, a educação da mulher, salário, condições de trabalho, sendo de grande valia para a comunicação real para as mulheres que ocupavam este campo. A autora Jane Soares de Almeida ao invés de falar de um modo geral do feminismo, busca a real identidade e papel da mulher no magistério. Há o relato transcrito de três professoras D. Elza, D. Helena e D. Maria Eugênia que se formaram na década de 30 e 40, e acompanharam este processo de feminilização, e a conquista da mulher no espaço público. E como o magistério foi tão bem aceito na época por ser vista como uma profissão que pertencia a vocação da mulher que não afastou a mulher da esfera sagrada do lar, mas ao mesmo tempo a mulher conquistou a regulamentação trabalhista para si, carga horária de trabalho geralmente meio período para não atrapalhar o lar, salário, poder andar desacompanhada . Mesmo que ainda fosse vista como vocação ser professora foi uma conquista da mulher na esfera pública com não deixou se ser uma profissão, uma carreira a seguir. A educação no magistério libertou de certa a mulher como um ser historicamente existente e fazendo parte da história, sendo que na década de 40 a mulher era vista de forma muito inferior ao homem, intelectual e biologicamente, antes a mulher estava sempre vetada aos dogmas da igreja católica dentro dos colégios internos, e a igreja via a educação como uma contaminadora da imagem imaculada da mulher. O magistério foi uma conquista das mulheres e não um espaço cedido, e houve sim muito esforço e luta feminina para conseguir os primeiros passos para esta emancipação. A autora não condena os relatos encharcados deste amor que era imbuído na formação da época, e se faz presente nos relatos das professoras. Eu entendo que está paixão que as professoras explicitam nos relatos é aquilo que nos move como docente, a paixão pelo possível, seria o entendimento que ser professora requer sim muito esforço, o que nos move é a paixão do ato de ensinar e como nós agimos hoje irá abrir caminhos diversos de possibilidades, crescimento intelectual, entendo como o prazer de partilhar a cultura. O afeto que muitas vezes é intitulado pejorativamente como a vocação feminina, não deveria ser visto desta forma, o amor, a paixão por aquilo que se faz é agir de forma digna, preservando a nossa humanidade tão perdida na contemporaneidade. Para mim o livro da autora foi de grande valia em minha formação, o tema gênero tem ocupado muito pouco espaço na esfera educacional, a desvalorização do magistério não é produto de sua feminilização e sim por atender as bases de um sistema capitalista que para ser mantido em ordem, tem que perpetuar a desigualdade, então a educação tem que perpetuar esta carência. É fundamental que nós tenhamos consciência destas relações de poder que estão de forma intrínseca ligadas na escola, que são tão recentes historicamente. Nós como professoras não deveríamos aceitar este discurso vitimizador, carregar e entender a educação como a redentora de uma nação tão “injusta” e desigual, educação é uma esfera, entre muitas outras esferas que formam nossa sociedade instituída em bases desiguais. Não é apenas cair no discurso utópico muitas vezes das bases igualitárias, mas ter sempre uma visão crítica do mundo, e instigar, e despertar esta visão no outro. O que nos move : a paixão pela possibilidade de uma sociedade mais consciente de si, do outro, e do meio. O que nos mantém na luta ( não entendendo a luta como um sacrifício diário e sim nosso prazer conquistado): a mesma paixão que nos impulsionou a começar. “Nada de grande se faz sem paixão” Hegel.

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