Ao viajarmos por este livro rumo ao Japão, encontraremos a pintura da perfeição de mestre Tsuji, a mira do destino no arco de Satoru, o brilho da relíquia nas mãos de Koetsu os contornos do vaso dos cinco elementos de Eiti, a faixa preta do órfão Kentaro, as batidas do silêncio do tambor de Hayashi, o sabor de um chá que demorou sete anos para ser preparado por Yuudoi, o som da flauta mágica de Harada, o bonsai gigante de Ito, a xilogravura sem fim de Nobuo, as cordas do coração do shamisen de Emi, o origami desdobrado de Masao, o abraço sem braços da boneca de Kokeshi e as flores da vida no quimono de Hana... Por que os Contos do Sol Nascente emocionaram tantas pessoas nos países do poente, recebendo tantos prêmios literários no Brasil e em Portugal? Talvez porque entre o nascente e o poente... brilha uma única alma humana.
Contos do Sol Nascente -
André Kondo
O sol nascente por um descendente
Quem diria que todas, ou quase todas, as belezas do Japão caberiam em um único livro de contos? Para quem tem contato com a rica cultura nipônica, o livro “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, constitui um olhar e uma lembrança. Com estilo consolidado, o jovem autor já é autor de alguns livros relevantes e detentor de vários prêmios literários. No livro referido, Kondo mostra a força da sua narrativa, que, menos que força, é uma delicada tessitura em torno de um quimono, de um bonsai, de um origami. Os heróis dos contos são sempre seres vulneráveis, no seu ímpeto juvenil, que querem vencer, mas são limitados e, assim, confrontados com a sabedoria acumulada dos anos. Esses jovens heróis aprendem sempre a lição de vida com um mestre – este também sempre presente –, um pai, um avô, um irmão mais talentoso; com exceção do primeiro e premiado conto, “A pintura”, em que é o avô, exímio pintor da natureza, quem aprende com sua netinha, a partir de sua pureza infantil. “A pipa” também é assim: o avô, grande vencedor de confecção de pipas, aprende uma lição de simplicidade com seu neto, que por sua vez aprendeu com o primeiro os rudimentos de como construir esse leve objeto de volteios no ar. Os contos de Kondo são bonitos, elegantes e imagéticos: neles, uma cerejeira em flor pode exalar o aroma da terra ancestral, um tambor tem o ritmo do coração, e a conquista amorosa – não necessariamente entre um casal, mas entre pai e filho, criança e adulto, é feita pela persistência, pela fé inabalável e por um carinho delicado. A certa altura do livro, quando já se tratou de arqueiros, tocadores de tambor, samurais e outras personagens masculinas, sente-se a falta do universo feminino. Mas ele está lá: em “O shamisen”, “O origami”, “A boneca” e “O quimono”, os últimos quatro contos, são elas, as mulheres e meninas, quem impõem sua lírica. “Contos do Sol Nascente” é um livro que já nasceu premiado. Contemplado com o ProAc – Programa de Ação Cultural do Governo de São Paulo, foi publicado em 2011. Tem ilustrações belíssimas abrindo cada conto, assinadas por Von Victor. É uma leitura que se deve fazer com carinho, pois, certamente, com carinho foi escrito por esse jovem autor que voltou à terra de seus ancestrais, o Japão, para trazer de lá os traços de cada costume, em sua forma mais tradicional.
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