"Her eyes were her own."
Eu sempre sou invadido por um sentimento diferente quando chego ao final de livros tão extensos. Da mesma forma que eu acompanho todas as aventuras e todos os percalços dos personagens, eles também me acompanham nos meus. Sinto que Scarlett, Rhett e Melanie estiveram comigo enquanto finalizava meu mestrado, enquanto me adaptava em um emprego novo e enquanto sofria o luto pela minha avó, a quem perdi recentemente. Me dói um pouco me despedir dessa obra pois sei que sempre terei ela associada a tantos momentos marcantes. É quase como me despedir de bons amigos. Nesse livro, temos um grande romance, que tem como pano de fundo a Guerra Civil Americana. No primeiro volume, temos a guerra em si; no segundo, a Reconstrução, quando o lado derrotado precisa se adaptar ao novo mundo, construído pelos vencedores. Em termos de História (com H maiúsculo), esse livro dá muita repulsa. A romantização da escravidão é DESCARADA. Negros são retratados como felizes, fiéis aos seus donos e como se serem libertos tivesse sido a pior coisa que lhes poderia acontecer. E, quando o narrador se demora nas consequências da abolição, com negros ocupando cada vez mais espaços naquela sociedade e interferindo na legislação, a palavra é apenas uma: racismo. Talvez seja anacronismo da minha parte, mas é impossível desligar as minhas ideologias ao ler um livro altamente ideológico. Quanto ao plot: que magnífico! Temos a jovem Scarlett O'Hara, filha de um fazendeiro próspero do norte da Geórgia, uma moça que, no auge dos seus 16 anos, só vive em torno de rapazes, bailes e festas. A vida dela vira de cabeça pra baixo quando, num só dia, descobre que o garoto que ela ama vai casar com outra e que a Guerra, de fato, vai acontecer. E a diferença entre a Scarlett do capítulo 1 e a do capítulo 63 é, na minha opinião, a ilustração mais perfeita da definição de personagem esférica. Protegida pelo seu mantra ("I'll think of this tomorrow"), pelos seus antepassados irlandeses, ela assume as rédeas de um mundo revirado e se transforma, de uma menina rasa e fútil, numa mulher forte, resiliente e sem medo de fazer o que precisa ser feito. Todos os personagens foram lindamente construídos e tristemente concluídos. Chorei com a morte da Melanie. Li incrédulo as últimas palavras do Rhett pra Scarlett. Detestei o Ashley do início ao fim. E a própria Scarlett, mesmo sendo uma das piores pessoas do romance inteiro, te cativa a ponto de te fazer esquecer o quão odiosa ela é. O enredo é redondinho, com um final que volta pro começo e com uma conclusão que deixa o leitor moderadamente esperançoso por um "happily ever after". Que inveja eu sinto de quem ainda vai ler esse livro pela primeira vez! "They were the eyes of a happy woman, a woman around whom storms might blow without ever ruffling the serene core of her being."





