DEIXEM FALAR AS PEDRAS -

    David Machado

    Dom Quixote
    2011
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-13: 9789722045032
    Português Brasileiro

    No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que ...mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar. Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

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    Leila Cardoso picture
    Leila Cardoso14/10/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    David Machado, autor do maravilhoso Índice Médio de Felicidade, retorna com Deixem Falar as Pedras, uma obra mais densa e introspectiva, que explora temas como memória, senilidade e as imperfeições das relações familiares. Embora não tenha a leveza e a extroversão do trabalho anterior, Deixem Falar as Pedras oferece uma leitura cativante e provocativa. A trama se desenvolve em torno de Nicolau Manuel, cuja vida foi marcada por um mal-entendido devastador: sua crença de que o alfaiate responsável por seu terno de casamento seria o culpado por sua prisão. O autor constrói de forma brilhante a tensão gerada por essas “conversas atravessadas”, que moldam e envenenam vidas inteiras. Nicolau vive com ódio, carregando uma mágoa não resolvida, o que afeta profundamente seus relacionamentos e escolhas. O que mais me chamou atenção foi a habilidade de Machado em brincar com a dualidade entre memória e senilidade. O leitor é levado a questionar, em diversos momentos, se o que está sendo narrado são fatos ou ilusões criadas pelas mentes dos personagens idosos, que não são figuras confiáveis. Esse jogo narrativo não apenas instiga a dúvida, mas também reforça a fragilidade da memória humana, em um interessante contraponto com a busca por verdades inatingíveis. Outro ponto alto do livro, para mim, foi a relação de cumplicidade entre Nicolau e seu neto, Valdemar. Enquanto a relação entre Nicolau e seu filho é marcada por distanciamento e ressentimento, o vínculo entre avô e neto parece ser de maior profundidade e afeto. Valdemar, com sua complexidade emocional e seu diário introspectivo, busca entender e resgatar as memórias do avô, em uma tentativa de dar sentido ao que restou da história de sua família. Além disso, o livro está inserido no contexto histórico da ditadura de Salazar em Portugal. A prisão de Nicolau não é apenas um incidente pessoal, mas está diretamente ligada ao regime repressivo da época, marcado por perseguições e censura. O impacto da ditadura salazarista sobre os personagens é profundo, refletindo-se tanto nas suas experiências de vida quanto na maneira como lidam com o passado. Machado tece essa crítica ao regime de forma eficaz, trazendo à tona as cicatrizes deixadas por esse período na sociedade portuguesa. A obra também nos apresenta famílias imperfeitas, revelando as falhas e tensões tanto no relacionamento entre Nicolau e seu filho quanto na estrutura familiar de Valdemar. A mãe de Valdemar, uma figura ausente e ocupada, é retratada quase como um ser etéreo, distante em momentos importantes da vida em comum, o que adiciona mais camadas de reflexão sobre os laços familiares. Enfim, achei mais um livraço do autor português e pena não haver mais obras dele por aqui. Se encontrarem qualquer um dos dois por aí, vá sem medo de errar. #ficaadica

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