"- A humanidade tem medo da morte, sabe? Por isso, faz piadas sobre ela. Eles vêem em mim um servo da morte. Em você, a filha desse servo. Mas eles não nos conhecem, Rebecca. Nem a você, nem a mim. Esconda deles a sua fraqueza, e um dia nós nos vingaremos. Dos inimigos que zombam de nós."
Hoje é um dia especial, e todos os dias merecem ser considerados mais do que especiais. Não seria justo que eu ficasse me vangloriando porque tenho uma casa, porque não vivo em situação absurdamente precária durante o caos de uma guerra mundial, ou porque não estou doente. Mas acho que não posso trabalhar a resenha desta obra sem me vangloriar de uma coisa: "Eu tive o privilégio de conhecer a obra da Joyce Carol Oates!", e ao lerem A Filha do Coveiro, vocês vão entender milhares de coisas, entre elas, os motivos que me fazem poder dizer que este, é indubitavelmente um dos melhores livros que já li na vida.
A protagonista Rebecca Schwart é uma jovem que cresceu em meio à discriminação e à violência numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. É filha de Anna e Jacob Schwart, que fugiram da Alemanha em 1936 com seus dois filhos mais velhos para escapar da perseguição nazista.
Porém a condição de refugiados no interior dos Estados Unidos não é muito melhor do que a situação na Europa. Ela e sua família conseguem abrigo num velho chalé no cemitério de Milburn, onde seu pai,um ex-professor de matemática, é obrigado a aceitar um emprego de coveiro no cemitério local, e o exíguo salário que recebe mal dá para sustentar a família. Assim, a família Schwart vai vivendo em meio a privações e ao preconceito, Jacob e sua esposa mergulham cada vez mais fundo na loucura,e carregam com eles o resto da família.O desfecho não poderá ser outro além do desastre.
Rebecca cresce,escapa da tragédia familiar e, mudando-se de cidade, tenta recomeçar uma nova história,mas infelizmente carrega cicatrizes de uma vida permeada por muita humilhação, discriminação e maus tratos, inclusive familiar. Casa-se, tem um filho que ama acima de tudo, mas a violência familiar volta a encontrá-la, e só fugindo novamente, e vivendo sob um nome falso, poderá reencontrar a felicidade e a chance de garantir ao filho o que ela não teve.
Joyce Carol Oates, tem uma grande característica como escritora, ela é bastante realista, por vezes chega a ser cruel ao narrar os acontecimentos do livro, e acredito que isso é um de seus grandes feitos. À medida em que vamos avançando na leitura, ficamos estupefatos e envoltos numa teia magistralmente bem elaborada, da qual não se quer sair. Perdi a conta de quantas vezes me peguei rindo e chorando ao mesmo tempo, enquanto acompanhava a vida dessa incrível personagem chamada Rebecca Schwart e aprendi que viver é uma luta constante, e quando amamos... aí somos imbatíveis!