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    João Goulart - Uma Biografia

    Jorge Ferreira

    Civilização Brasileira
    2011
    714 páginas
    23h 48m
    ISBN-13: 9788520010563
    Português Brasileiro
    4.3
    44 avaliações
    Leram91Lendo7Querem212Relendo0Abandonos3Resenhas8
    Favoritos6Desejados212Avaliaram44

    João Goulart foi, sem dúvida, o principal herdeiro do carisma de Getúlio Vargas, a grande figura da História do Brasil do século XX. Seu nome liga-se fortemente à República que se estabelece no pós-1946, durante a qual constrói sua carreira política como parlamentar e como liderança de uma das maiores organizações do sistema partidário que então se consolida: o Partido Trabalhista Brasileiro. Contudo, pode-se dizer que, na memória política nacional, o nome de Jango, quando é lembrado, o é muito mais por ter protagonizado os últimos momentos dessa fase da vida política brasileira do que por qualquer outra razão. Jango tornou-se, por excelência, o presidente deposto pelo movimento civil e militar de 1964, que inaugurou mais de vinte anos de autoritarismo no Brasil. Um fato histórico tão determinante para a trajetória desse presidente da República que praticamente tudo que ele fez no passado pré-64 ou no decurso posterior de sua vida, até porque morreu no exílio, ficou como encapsulado nesse acontecimento: uma espécie de síntese de sua vida, demarcada por sua deposição do poder, em geral analisada como um desdobramento das ações de seu governo, globalmente avaliado como um equívoco político. Tornar complexa esta versão historiográfica já tão compartilhada, e relativizar os julgamentos de valor que ela constrói sobre a figura de Jango, talvez seja uma das principais contribuições de João Goulart: Uma Biografia. Uma, pois há outras. Em função de uma pesquisa minuciosa, que recorre com destaque à imprensa e às entrevistas de História Oral, Jorge Ferreira tece um rico panorama da Terceira República brasileira, sem cair nas duas armadilhas que assombram seus praticantes: a dos elogios, que a tornam uma hagiografia; e a da narrativa excessivamente factual, pontuada por um certo voyeurismo, danosa ao trabalho do historiador.

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    Felipe Correia Pimenta picture
    Felipe Correia Pimenta09/03/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    País de golpes e de golpistas

    Com o país vivendo uma crise política e econômica sem precedentes, pois julgo que nem em 1964 o sistema político, a imprensa, o judiciário e a população como um todo desceram a um nível tão baixo, estudarmos a história política de alguns de nossos maiores líderes políticos do século XX foi revelador. Tanto a biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto quanto a de João Goulart, de autoria de Jorge Ferreira, revelaram incríveis semelhanças com o estado atual do Brasil. A crise política vivida por Goulart teve sua origem no período Vargas, e ele não soube como reverter o processo de radicalização alimentado pela Direita e por uma imprensa irresponsável; da mesma forma que o governo Dilma Rousseff foi incapaz de administrar um sentimento de revolta que vinha desde o início de seu governo. A diferença é que Goulart foi um político muito mais hábil e menos ingênuo que Dilma. A biografia de Jango feita por Jorge Ferreira é muito agradável de ser lida. Em termos pessoais, João Goulart não tem grandes coisas a serem destacadas. Foi um grande empresário que, graças ao trabalho e a seu talento para os negócios, enriqueceu cedo. Era bonito, charmoso e conseguia todas as mulheres que queria. Casou-se, no entanto, com uma mulher muito mais jovem do que ele, e cujo relacionamento começou quando ela ainda era adolescente. Em seu trabalho, Jango exibia grande preocupação com seus funcionários e possuía o hábito de, quando os governos locais eram incapazes de resolver alguma situação, tirava dinheiro do próprio bolso e ajuda a população pobre que o pedia auxílio. Sua ascensão política de deputado pelo Rio Grande do Sul até ministro do trabalho de Getúlio Vargas foi bem rápida. Assim como em suas negociações como empresário, Jango exibia em sua atuação como deputado uma grande capacidade de negociação. Foi um grande apaziguador de divergências e buscava sempre o entendimento entre as partes. Como já era conhecido por estas virtudes, e por ser da mesma cidade que Vargas, que o conhecia pessoalmente, Jango obteve o ministério do trabalho em um momento delicado. A radicalização promovida por políticos como Carlos Lacerda, os ataques vindos da imprensa, ambos com uma retórica antinacionalista e contra uma suposta ameaça comunista, greves generalizadas etc., já preparavam o caminho para o golpe militar 10 anos depois. Jango logo demonstrou seu talento em negociar diretamente com os sindicatos e trabalhadores, algo inédito até então, pois nem Vargas costumava recebe-los, e quando o fazia era com todo um cerimonial envolvido. Com Goulart era diferente graças a seu estilo despojado. A hábil atuação de Goulart no ministério permitiu que Vargas se concentrasse em outras áreas críticas de seu governo. Sua histórica defesa dos direitos dos trabalhadores recebeu com Jango um novo fôlego. Goulart foi defensor incansável do valor do trabalho e das conquistas da CLT contra o poder do capital. Naquela época, assim como hoje, isso lhe valeu a suspeita de comunista. Cedo começaram os ataques de Carlos Lacerda contra Jango, inventando acusações de corrupção falsas a todo o momento contra seus adversários políticos. Jorge Ferreira demonstrou que Vargas, JK e Jango, três líderes nacionalistas, foram acusados incessantemente de corruptos pela direita e imprensa da época. Ambos sempre moralistas. O livro de Jorge Ferreira também possui uma minibiografia de Leonel Brizola e fornece detalhes do governo JK, que teve Jango como vice-presidente. Brizola sempre disputou com Jango a liderança da esquerda trabalhista. Sendo pouco conciliador e bastante radical, algo que Jango nunca foi, Brizola terminou por ter um papel um tanto negativo na vida política de João Goulart. Interessante é tentar compreender como JK governou e manteve o poder mesmo com uma tentativa de golpe clara liderada por Lacerda e alguns militares; isso porque entendemos que é importante não somente alcançar o poder, mas, principalmente, exercê-lo, algo que nem Lula nem Dilma jamais compreenderam. JK soube exercer seu poder de presidente legítimo contra golpistas, como quando ameaçou canais de tv por causa do espaço concedido a Lacerda e utilizando a força do marechal Lott para destruir uma conspiração militar. JK não necessitava das acusações recorrentes de corrupção para ser desgastado, pois bastava toda a dívida e a inflação geradas pela construção de Brasília. O governo assumido por Jânio Quadros teria de enfrentar toda uma herança maldita na área econômica, mas recorde-se que ele foi eleito com uma plataforma moralista de varrer a corrupção. Não tinha condições de governar e deixou o governo para João Goulart. O cenário era muito parecido com o atual, pois o clima de anticomunismo, misturado com desordem nas contas públicas, produziram o desastre. Por mais que a história tenha julgado João Goulart como um presidente indeciso e fraco, o que é uma injustiça, o autor demonstra que o espírito conciliador de Jango não era poderoso o suficiente para colocar ordem no país naquele momento. Com certeza o judiciário não era ainda o legitimador de um estado de exceção como é hoje, e mesmo a imprensa golpista não era tão baixa como agora, mas o medo do comunismo talvez tivesse mais sentido naquele momento, até porque os Estados Unidos foram o grande incentivador da deposição de Goulart. Infelizmente não havia a presença de um marechal Lott para barrar novamente os militares golpistas; porém, Jango não pode ser perdoado pela grande incapacidade que tinha de escolher membros fortes para seus ministérios, principalmente o do exército. Dilma Rousseff também possuía este defeito, só que em grau mais elevado. As esquerdas também colaboraram com a queda de Jango indiretamente, porque apesar de Jango estar disposto a colocar em pauta suas reformas de base, Brizola e outros queriam apressar de maneira temerária as pautas da esquerda. Deram combustível para o discurso histérico de Lacerda. Como a situação deteriorou-se rapidamente, Jango apostou alto no famoso comício da Central do Brasil. Perdeu. Quando o golpe começou a manifestar-se, Jango teve oportunidade de lançar um contra-ataque militar contra as tropas vindas de Minas Gerais, e ainda lançar um bombardeio contra o bunker de Lacerda, que estava isolado. Recusou-se a derramar sangue. Teve medo de uma possível invasão americana. Anos depois viria a reconciliar-se com Lacerda. O Brasil é assim: gosta de bancar o pacífico quando surgem os grandes combates, mas tolera a tortura, os homicídios e tudo mais. A longo prazo não houve qualquer pacificação seja na sociedade, seja no campo político. Nisso Jango errou. O país assistiu novamente o mesmo processo do golpe contra Jango, porém, sem militares. A história foi a mesma: tentativa de se agir de maneira republicana; diálogo em excesso e ação de menos; imprensa corrupta. No entanto, a atuação do judiciário atualmente desceu a um nível que nos anos 1960 nem se poderia sonhar. O Brasil segue com sua falsa paz e falsos apaziguamentos, isso para mantermos as aparências…

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    Jorge Luiz Ferreira

    Nascido no Rio de Janeiro, o autor graduou-se em história pela Universidade Federal Fluminense e na mesma instituição fez o mestrado na Universidade de São Paulo, obteve o título de doutor em História Social, foi admitido como professor em 1985 na Universidade Federal Fluminense, onde dá aulas até hoje.

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Jorge Luiz Ferreira