Maurice Maeterlinck pertence ao grupo dos seres que transcendem — que passam além — que mergulham e têm visões, ou intuições, na estratosfera do nosso mundo mental. E traduz essas visões e intuições, ora sob forma poética, ora sob forma filosófica. A Sabedoria e o Destino é uma das obras menos características dessa feição desse grande... — como dizer? — desse grande receptor, desse grande copiador. Porque muito mais que um poeta ou filósofo do tipo comum, Maeterlinck funciona como aparelho de altíssima sensibilidade na captação do "indizível". Os amigos da clareza meridiana afastam e condenam estes órgãos da captação mental como "incompreensíveis" e "obscuros". Mas o leitor de sensibilidade mais fina a eles se apega, como o homem de temperamento musical se apega ao que chamamos "música". Porque é isso o que, na realidade, Maeterlinck é: um inspirado Beethoven da música do pensamento. O meio de lê-lo não é analiticamente, como lemos um livro de física; o meio de lê-lo é ir lendo como quem desliza num planador, e deixando que a música do pensamento que sai daquele seu jogo de palavras nos penetre como um fluido ou uma sonoridade distante. Maeterlinck é um escritor para ser "ouvido", "sentido", "entrecompreendido", como uma coisa que nos vem da quarta dimensão. A tradução de A Sabedoria e o Destino é de Monteiro Lobato. Os trechos acima são tirados do prefácio que ele escreveu como abertura deste volume sob o título: O poeta do indizível.

