A memória afetiva que carrego do filme <i>As sete faces do Dr. Lao</i> (George Pal, 1964), um dos clássicos que me acompanharam nas sessões da tarde da infância, atrapalham a fruição do livro no qual a obra cinematográfica se inspira. Não que <b>O circo do Dr. Lao</b>, escrito na década de 30 por Charles G. Finney, considerado o pai da literatura gótica, e publicado este ano no Brasil pela LeYa, seja um livro ruim, de forma alguma! De zero a cinco, vale quatro estrelinhas do Skoob. Mas o filme traz uma nostalgia enorme da infância e merece com toda certeza, as cinco estrelas do Filmow. Confesso que esperava do livro o mesmo arrebatamento, mas a lógica se inverte: a adaptação em película é superior ao original em papel.
A expectativa em que fiquei para ler o livro se frustrou em boa parte pela falta de cuidado da edição em português. A obra carece de um zelo maior da editora com a revisão final da tradução. Os erros de digitação e palavras repetidas comprometem a fluência da leitura; além claro, do sentido das frases. Fica a dica para que as próximas edições, mesmo quando em versão de bolso ou com preços mais populares, primem pela qualidade. Do contrário, presta-se um desserviço ao leitor.
A história é intrigante, mas bem menos sombria na versão literária do que no filme. A produção cinematográfica aproveita-se bastante do estranhamento provocado pelos personagens exóticos do circo que se instala em Abalone, cidadezinha perdida no Arizona. Além disso, a adaptação do cinema explora com maestria o clima de realismo fantástico e o nonsense de algumas situações. Há uma mistura perfeita de inocência e malícia, sinceridade quase ingênua e perversa hipocrisia. Os personagens na tela são cheios de nuances, enquanto no livro são tratados de forma bem mais maniqueísta.
No livro de Finney, o que chama atenção é que o texto inteiro é construído para valorizar as entrelinhas. A obra revela-se mais naquilo que o autor não diz. No entanto, as descrições exageradas de cada personagem (com exceção do primoroso trecho sobre o advogado Frank Tull) torna-se tediosa. A sensação é de que a história demora a começar, pois o autor passa metade do livro narrando a tediosa rotina dos moradores de Abalone e as conjecturas meio infantis que alguns tecem sobre a chegada do circo.
Se há expectativas naquele povo curtido pelo sol e pela poeira do deserto para ver o espetáculo que promete mudar-lhes a vida, não parece. A promessa de que o circo servirá de espelho para mostrar a banda podre de Abalone também não se cumpre. Com exceção do diálogo fabuloso entre o vidente Apolônio de Tiana e uma solteirona fútil da cidade, há bem menos acidez na história do que se poderia esperar. A conversa entre a serpente marinha e o editor do jornalzinho de Abalone, que no filme é pontuada de sarcasmo, no livro estende-se mais que o necessário, sem metade do veneno destilado na tela.
No geral, a apatia domina a cidade e o temperamento dos moradores de Abalone. A vontade ao final da leitura é de que a serpente marinha engula o vilarejo logo de uma vez, mas nem esse consolo o autor nos dá. O leitor se sente desconfortável com esse panorama tão pessimista da alma humana. Desencanto seria a palavra para descrever O circo do Dr. Lao e aí sim, dá para entender porque Finney é aclamado até hoje como o pai da dark fantasy.
Por que quatro estrelas? Justamente pela sinceridade do autor em descrever tipos tão despresíveis e destituídos de carisma. Finney descortina o nonsense do grande espetáculo humano sem piedade. Taí o grande mérito da obra.