Blá, blá, blá como fonte de energia e de encantamento.
Há momentos em nossas vidas que necessitamos de uma “máscara de oxigênio” e movidos por essa necessidade, jogamos tudo para o alto ( eu e meu marido) e nos ausentamos por uns dias do nosso lar doce lar. Ao chegarmos ao nosso destino, me dirigi a biblioteca e quem é que me recebe? Ele – Mia Couto e o seu “A Varanda do Frangipani”. O Olimpo me sobrou que eu estava diante de uma fonte de oxigênio inesgotável e abri um sorriso que foi de orelha a orelha. A temática do livro pouco foge às temáticas abordadas por Mia Couto em seus romances: os efeitos desastrosos e devastadores da colonização, da ocidentalização, das guerras, enfim o mesmo blá, blá , blá de sempre. O que? Blá, blá, blá ? E em se tratando de Mia Couto, essa afirmativa é nada mais nada menos que abominável, pois estou falando de um escritor que proporciona ao leitor , em cada obra, experiências únicas e a leitura do “ A Varanda do Frangipani” não foi uma exceção. Com sua prosa poética - sua característica- e se utilizando de metáforas Mia Couto aborda neste romance o desprezo pelo antigamente e para isso cria um romance com nuance policial que se inicia com Ermelindo Mucanga - um condenado à condição de um fantasma ( um xipoco) por não ter tido um funeral de acordo com as tradições Mucangas - mostrando sua insatisfação diante da sua promoção a herói-póstumo. Para fugir desse seu “destino” Ermelindo se vê obrigado a ocupar o corpo de Izidine Naíta, o inspetor de polícia encarregado de desvendar um crime ocorrido em uma fortaleza que outrora serviu para proteger os portugueses e que foi transformada em um asilo. Ermelindo teria uma breve vida: seis dias, o tempo previsto para desvendar o crime. Nesses seis dias, Izidine entrevista os asilados e assassinos confessos e, por meio dessas entrevistas , nos deparamos com os dramas de cada asilado e que também é o drama de uma país pós colonial. A missão do policial era desvendar um crime- o desaparecimento do Vasto Excelêncio-entretanto, também nos é dado constatar que a fortaleza é testemunho de um crime que não é exclusividade de Moçambique – o abandono dos idosos. Há uma passagem que me tocou profundamente : Salufo resolve deixar o asilo , mas para poder contar com o cuidado de parentes é obrigado a mentir – ele diz ser possuidor de bens materiais. Merecedor de destaque é o título : “A Varanda do Frangipini, pois além de instigador ele tem papel fundamental no destino do Ermelindo e dos asilados. Varanda. no livro, refere-se a Fortaleza de São Nicolau e é uma alusão a Moçambique e Frangipani ,de acordo com o glossário constante do livro, é uma árvore tropical que perde toda folhagem o período de floração. E foi essa árvore , quando no final, reduzida a um tosco esqueleto quem me proporcional uma experiência quase transcendental. Penso que, quando no início do romance, Ermelindo rejeitou a condição de herói, desconhecia ser esse seu carma, pois quando deixou o corpo do seu hospedeiro e correu para salvá-lo , ao meu ver se transformou em um. Sim, Ermelindo foi um herói, desta feita, não um herói por conveniência, por interesse político, mas sim por salvar Izidine e também por reconhecer o quanto foi omisso e o quanto sua vida tinha sido uma farsa. Por sorte, ele teve um segunda chance e soube aproveitá-la, fazendo jus assim, ao seu tranquilo e derradeiro sono, e é a frangipini, que renasceu das cinzas, a sua eterna morada e também a dos seus seguidores. Não. Não foi o Olimpo que me soprou nos ouvidos que A Varanda do Frangipani seria minha máscara de oxigênio, seria meu combustível. Minha certeza é decorrente das leituras anteriores que fiz dos romances de Mia Couto , uma vez que todas elas me provocaram uma sensação única e praticamente impossível de descrever. Certa que encontrarei muitos blás, blás, blás em futuras leituras de Mia Couto que me proporcionarão novos encantamentos, encerro aqui esse meu blá, blá, blá.


