José Saramago sempre esteve envolvido com a vida política de Portugal, principalmente após 1974,quando o romancista passou a se situar literariamente ao lado dos autores que vivenciaram a Revolução dos Cravos e que procuram imprimir às suas obras um traço combativo, crítico, experimental e reflexivo em relação à nova realidade portuguesa e aos novos caminhos abertos para a produção artística.
Não à toa, sua ficção é tocada por um empenhado trabalho de resgate, e de riscos diante da matéria histórica que escorre pelo universo ficcional; sobretudo, uma perspectiva irônica e subversiva em relação ao discurso literário, historiográfico e político. Acerca dessa ficção portuguesa atual que escreve a História, discutindo na tessitura narrativa os mecanismos e os caminhos ficcionais a serem percorridos pelo romancista no seu afã de dizer bem desse jogo que o universo narrativo estabelece com o leitor, destaca-se a produção monumental de José Saramago.
É difícil manter-se distante, impassível diante da sedução que faz parte do estilo Saramago de escrever.
“O Evangelho segundo Jesus Cristo” transporta o leitor por caminhos tão singelos e ao mesmo tempo tão polêmicos que é difícil dar conta de saber aonde essa viagem leva. A trama, bem trabalhada, além de mostrar Jesus Cristo como homem comum, também o leva à categoria de Reis dos Reis sem deixar que isso interfira, por exemplo, na sua relação conflituosa com sua mãe, no seu amor por Maria de Magdala ou no seu comportamento desafiador perante Deus.
José Saramago convida aos leitores a tirar das páginas dos livros e trazer para a vida, para o mundo tais experimentações; é a magia da verossimilhança. Para tornar a personagem o mais próximo possível do leitor, o autor força-o a uma atitude surpreendentemente nobre: lança-o ao mundo à procura do vizinho e amigo, ele não só o encontra, mas também acaba encontrando a libertação através da morte de maneira injusta. José está redimido.
Não há nada mais contemporâneo do que a morte de um inocente. Através da morte de José o texto mantém os leitores presos à realidade e sentimentalmente ligados à história e ao anunciado destino do ainda menino Jesus, já que o pai encontra seu fim tal qual ele próprio encontrará: crucificado aos 33 anos.
Além disso, a subtrama protagonizada por José faz o público-leitor viajar no tempo e o faz imaginar que papel teria hoje o pai do filho de Deus se a obra fosse contemporânea aos Evangelhos bíblicos. Em teoria, sempre se pode inventar um sistema que torne plausíveis pistas que, em outras circunstâncias não teriam ligação.
O Jesus criado por José Saramago é, afinal, um homem comum com todos os defeitos ou homem santo, acima do bem e do mal? No Evangelho do autor português, graças as suas metáforas bem criadas, ao seu gênio subversivo e estético, aos conflitos bem resolvidos e aos diálogos esclarecedores, Jesus é recriado com a dupla face dos seres humanos, sem perder sua face iluminada e messiânica.