Nos últimos tempos, até que surgiu bastante guias de leituras das obras de Marx, Engels e Lenin, mas ainda falta realizar esse esforço para as obras e autores que surgem na cauda do marxismo. Isso se fez especialmente sentir quando peguei emprestado, na biblioteca da UFPA, a obra seminal de Harry Braverman, marxista estadunidense que lançou este Trabalho e Capital Monopolista lá em 1974, há 50 anos. Lembro que peguei esse livro na época porque a sua proposta de analisar criticamente a própria essência do trabalho sob o capitalismo (e ainda no Estado de Bem-Estar Social!) me pareceu instigante e atual. Ao fim da leitura, minhas impressões iniciais se confirmaram, mas a jornada foi longa e penosa para apreender suas próprias teses (e ainda tenho dúvida se entendi direito). Primeiro, às introduções.
Trabalho e Capital Monopolista foi um esforço de anos e anos do autor para entender uma pergunta que não era tão fácil assim de explicar na prática: por quê, no centro do capitalismo, em pleno auge econômico, as pessoas ainda desgostam e se ressentem com o trabalho? Até mesmo os empregados de colarinho branco, bem-pagos e sem os abusos patronais, salariais e ambientais que caracterizam o trabalho de fábrica, ainda se ressentiam dos chefes, dos esforços repetitivos, da falta de sentido, etc. Por isso, Braverman retomou o conceito de alienação, presente nos Manuscritos Econômico-Filosóficos e n'A Ideologia Alemã, e se utilizou de maneira crítica e brilhante das modernas teorias da administração como o capitalismo pratica, nas nossas vidas, o conceito de alienação.
Para o autor, as bases do capitalismo industrial são a ultraespecialização do trabalho, a ausência da visão global da produção, metas irreais que só servem à acumulação de capital e a ultrarracionalização do tempo de trabalho para maior otimização da mais-valia. Nesse sentido, há uma polêmica e um esclarecimento com relação às teorias tayloristas - segundo Braverman, a inovação de Taylor não foi a especialização do trabalhador, algo já presente em outras relações de produção, mas sim o aprofundamento deste foco de trabalho e o desconhecimento do empregado com relação ao processo global, para que este não possa replicar o trabalho com seus companheiros e fique refém dos administradores. A burocracia é outra entidade desmistificada pelo livro. Contrariando as teorias gerenciais vigentes até hoje, Braverman argumenta que a burocracia (pelo menos como a conhecemos hoje) não é inevitável, que ela é uma classe criada pelos capitalistas para dividir a classe trabalhadora e que serve para racionalizar os lucros no trabalho operário. O exemplo supremo do autor, a epítome da administração contemporânea sob os valores de Taylor & cia ltda, é algo que me fascinou profundamente: os cartões perfurados.
Pergunto: como se programava antes de existir motores gráficos e softwares? Diretamente na própria máquina, com o MS-DOS, alguns mais velhos. Mas e antes de existir MS-DOS, como funcionava? Oras, outras linguagens podiam ser usadas na BIOS do computador. Mas e quando não existia interface gráfica? Como se davam instruções ao PC? Dos anos 1940 até o fim dos anos 70, os comandos eram feitos com cartões perfurados Um cartão tinha fileiras cujos pontos podiam ser perfurados e, ao serem inseridos em um terminal, recebiam uma descarga elétrica, descarga a qual passava ou não passava, formando um código binário. Esta forma de programação, que o livro pegou em seu fim (e também no seu auge), era um pesado esquema realizado por centenas de programadores, nenhum dos quais, porém, tinha uma ideia total do código que programava - cada um apenas furava seu próprio cartão. Não bastando isso, o processo de perfurar, inserir e (se necessário) corrigir era medido em literais milésimos de segundo, sendo esse um processo que não poderia haver falhas, dada as (já) insanas quantidades de informação que necessitavam de ser processadas. Esse trabalho, que já detinha importância inegável na década de 70, foi genialmente interpretado por Harry Braverman como o trabalho capitalista em sua mais acabada forma: contínuo, enervante, desconectado entre si e sem um propósito real aos seus trabalhadores e nem à sociedade - apenas ao acúmulo de capital.
Este resumo foi bem grosseiro face à densidade surreal do livro. O autor discute profunde os princípios administrativos à luz da teoria marxista, e os seus impactos palpáveis no mundo do trabalho, e muita coisa ficou de fora desta resenha - há um capítulo sobre o trabalho em fábrica no qual aparecem sintomas muito próximos ao que conhecemos hoje como burnout, mas não me marcou tanto quanto o exemplo cibernético que dei. O autor não chega a se utilizar de palavras difíceis, mas sem um entendimento básico da crítica da economia política marxista (principalmente os Manuscritos, Ideologia Alemã e Salário, Preço e Lucro), a leitura pode se tornar ainda mais truncada face á saraivada de dados que o autor nos fornece.
Por tudo isso mencionei no começo que deveria haver uma listagem ou ranqueamento de autores marxistas segundo sua dificuldade (não digo afinidade porque senão dá polêmica). Certas obras, por mais relevantes e atuais que continuem sendo, só conseguem ser plenamente apreciadas quando já se tem um estofo teórico (e, por quê não, de vida) para se compreender a gravidade do que está sendo discutido. E Trabalho e Capital Monopolista.
Cabe uma releitura.
*Lido na edição da Guanabara Koogan publicada na década de 80. Houve edições posteriores, mas sem nenhum alteração significativa