A Sombra do Torturador, publicado recentemente pela editora Morro Branco, despertou meu interesse por sua premissa. Um torturador que é expulso da guilda por se apaixonar e ajudar uma prisioneira? A ideia é um tanto genérica, mas, quando bem executada, esse tipo de relacionamento pode ser muito envolvente.
Não à toa, o começo do livro me empolga. Passamos por uma introdução ao pequeno universo do protagonista — a guilda, a cidadela, as obrigações — e o segundo capítulo é genuinamente bonito. Mas, só depois de cem páginas, chegamos ao início do tema da sinopse. A premissa se concretiza com quase duzentas páginas e o trecho final acontece, mas não se resolve.
É claro que não se julga um livro por uma sinopse malfeita, mas minha intenção aqui é ilustrar como as coisas simplesmente não acontecem nesta história. Muitas vezes, temos a sensação de que o livro é sobre uma história que antecede a principal, devido ao tempo que passamos lendo sobre... nada.
O livro é a sinopse, e mesmo assim faltam elementos, pois a passagem de tempo com a Castelã Thecla é curta. O contraste entre ela e a personalidade "pouco se importando" de Severian é interessante, ainda que não seja nada de mais. Então, apesar da enrolação, tivemos momentos e interações legais.
O problema começa na segunda parte. Gene Wolfe estabelece um obstáculo para o protagonista logo no início da jornada para Thrax — o que acontece depois de 200 páginas, sendo que a jornada está na sinopse. No entanto, é um obstáculo tão fútil que beira o inacreditável. Esperamos de sessenta a noventa páginas para que, finalmente, a situação se resolva, pois não acontece absolutamente nada em 80% desse tempo. Há apenas uma passagem interessante em que Severian aprende a usar um tipo de arma diferente. A batalha acontece e o pós-batalha é um amontoado de nada novamente.
Não é como se os personagens fossem bons o suficiente para sustentar uma história vazia (até porque são coisas correlacionadas). Entendo que o livro é dos anos 80, e isso me fez relevar muitas coisas, mas Severian é um incel. Ok, protagonistas não precisam ser essencialmente bons, mas ele não é carismático, e seu único conflito é não poder casar com certas mulheres "porque não foram feitas para casar".
Thecla e Dorcas não são, necessariamente, personagens desinteressantes, mas são escritas como o arquétipo da mulher idealizada por um incel. De novo, ok, o livro é na perspectiva do incel, mas ele é um nada. Dorcas mal conheceu Severian e, SPOILER BOBO AQUI, LEIA SE QUISER, colocou a mão dele em seu peito. Sério. É brutal.
Não vou falar de Ágia porque ela é uma das personagens mais ridículas que vi nos últimos anos.
Ok, só reclamei até agora e dei 2.5★, o que reflete um livro com certos pontos positivos, elementos decentes. Bem.
O elemento decente é a narrativa. Na verdade, não é decente; é espetacular. É uma aula para qualquer pessoa que goste de escrever. A forma como ele começa quebrando a expectativa sempre que vai apresentar um novo cenário, porque a história se passa em uma visão monocromática, é impressionante. Depois, o autor se estende em muitos parágrafos explicando e "viajando", pois Severian percebe, raciocina e guarda informações, mas não as expressa verbalmente.
Wolfe usa a personalidade rabugenta do protagonista para apresentar o mundo de forma crua, trocando o brilho pelo pragmatismo. Ele constrói a narrativa a partir do pessimismo em vez da explosão corriqueira encontrada na fantasia, quando você vê algo novo.
São 390 páginas em que nada acontece, mas você lê porque a narrativa é tão fluida que não parece arrastada. É como ouvir uma história, e por isso aplaudo Gene Wolfe. Afinal, o livro é narrado pelo protagonista como se ele estivesse escrevendo uma autobiografia.
É uma pena que os elementos criativos não sobrevivam ao teste do tempo, teste que considero o mais importante de todos.