É uma edição com todas as características típicas de uma edição econômica (capa molíssima, sem orelhas, páginas finas, um tanto transparentes até), exceto o preço que, para nós brasileiros pelo menos, é o preço de uma edição de luxo. Carece de revisão ortográfica básica: os erros se sucedem página após página (na maioria das vezes, erros de concordância singular/plural, mas também coisas como "dálogo" em lugar de "diálogo"). A tradução é cheia de galicismos sintáticos (muitas regências francesas nos causam a impressão de um uso das preposições erradas em português), muito ao pé da letra, o que, em alguns momentos, chega a causar leve confusão e até uma certa impressão de amadorismo e/ou pressa da tradutora. Ao final do texto, à guisa de apêndice, exemplifico esses aspectos para quem tenha interesse. Por ora, deixemos de lado os problemas da edição portuguesa e comentemos o mais importante, o próprio texto.
As uvas de um mesmo cacho não amadurecem necessariamente no mesmo ritmo. Isso me permite avaliar essa obra da dupla perspectiva de um leitor leigo e de um leitor especializado. Li com grande empolgação os capítulos sobre Isocrates e Xenofonte (sobre os quais sabia respectivamente nada e pouquíssimo) e se os capítulos foram capazes de me empolgar, creio que cumpriram seu objetivo, me estimulando (como leitor leigo) à busca por mais de e sobre esses autores.
Por outro lado, como leitor relativamente especializado, não pude deixar de perceber um defeito inevitável nesse tipo de resumão: a simplificação excessiva. Porém, eu diria que, além de inevitável, esse é um defeito feliz, já que é sinal de que os estudos helenísticos permanecem sempre vivos, cheios de debates, reavaliações, questões em aberto, novos achados.
Mesmo sabendo disso e tendo consciência de que não podemos esperar aprofundamento num compêndio, em alguns momento tive a impressão de que o livro poderia ter sido menos superficial. Posso relativizar minha crítica pelo fato de que sou um estudante de letras clássicas e esse livro se destina a outro público, desconhecedor do tema. Porém, ainda assim, achei falha a escolha das informações a serem omitidas em alguns capítulos, de modo que, mesmo para esse público me parece que poderia haver prejuízo, na forma de um falseamento do aspecto geral do que temos da literatura grega. O que em parte se explica pelo fato inevitável de que a autora não pode ser especialista em todas as áreas da literatura grega.
Uma dos defeitos, comum nesse tipo de material assim como em cursos presenciais, mas que eu não esperava encontrar num livro de Jacqueline Romilly, é a desvalorização de certos autores e obras na forma de uma crítica superficial para justificar que não haja nenhuma detença sobre eles no livro, de certo modo, desestimulando que os leitores busquem conhecer esses autores e obras. Sabemos dos efeitos nocivos que esse tipo de crítica já teve (e continua tendo) ao transmitir preconceitos de geração em geração, fazendo gerações passarem ao largo de nomes e obras substanciais desse período. Vimos tantas e tantas vezes, na literatura antiga, em literaturas modernas, em outras artes, julgamentos serem passados adiante de geração em geração sem que cada nova geração fosse direto ao próprio texto para avaliar por si se a opinião daquela autoridade da geração anterior realmente se sustenta, gerando assim um cânone-prisão, um cânone-corrente, autocentrado, impedindo os novos leitores de olhar para fora, um ciclo vicioso. Ainda assim, graças a aventureiros que querem sair da batida via principal explorar por si mesmos as vias “secundárias”, vimos tantas reviravoltas acontecerem e estrelas começarem a brilhar intensamente depois de séculos (!) sendo enterradas pelos manuais, vimos tanto isso, e mesmo assim parece que ainda não aprendemos. Na literatura grega antiga mesmo, vimos como o período helenístico foi negligenciado até bem pouco tempo e hoje tem sido tão valorizado! Isso deveria servir para aprendermos a ser mais imparciais em nossas críticas a essas obras que, afinal de contas, se sobreviveram por cerca de dois mil anos e chegaram até nós, provavelmente alguma coisa têm e é irresponsável demais descartá-las de forma tão simplista. Poderia nos dar uma lição de humildade e nos levar a sempre admitir que, por limitação nossa, do nosso tempo, dos conhecimentos que temos, não vemos muita coisa em tal ou tal autor e que, no ponto atual dos nossos estudos, ele ainda está por ser explorado.
A autora poderia, no limite, fazer repreensões deixando claro que as faz de acordo com seu gosto individual, moderno, ou, já extrapolando, poderia dizer que a obra oferece dificuldades para o "gosto contemporâneo", mas cabe ao estudioso dessa literatura tentar reconstruir, na medida do possível e inevitavelmente de forma hipotética, o sistema de valores do qual ele emergiu, que o valorizou, que o preservou, que o legou de geração em geração e o fez chegar até nós.
EXEMPLOS DE PROBLEMAS DE TRADUÇÃO E REVISÃO
p.229: "[Platão] Era parente de Crícias e de Cármides [...] às vezes coloca-os em cena, bem como aos seus dois irmãos".
Esse "seus" traduz "leur" (que se referiria a Crícias e Cármides) ou "ses" que se referiria a Platão? Pela própria característica dos pronomes franceses, é provável que não haja ambiguidade no original, mas a tradutora portuguesa aparentemente não tinha segurança para resolver a ambiguidade criada em português se distanciando um pouco do original.
Na página 232 temos mais um exemplo do literalismo servil da tradução: "a oposição irredutível de dois objetivos - o sucesso na vida política (que os sofistas ofereciam) e a única consideração do bem (que Sócrates perseguia)". Esse estranho "a única consideração" parece traduzir o francês "la seule considération", que seria bem melhor traduzido por "A consideração exclusiva[mente]."
Na página 231, temos "sageza" e "reserva" para traduzir o grego "sôphosynê". A tradução do termo grego é mesmo um pouco complicada e ele engloba significados como "temperança", "auto-controle", se aproximando da semântica de "prudência" e "discrição". Talvez o termo "discrição" fosse o ideal (e é de se verificar se não foi justamente o cognato francês o termo escolhido por Jacqueline de Romilly) devido a sua própria evolução semântica, tendo por significado de base a capacidade de discriminar, de separar criticamente (o bem do mal, o certo do errado, o moderado do desmedido).