GEN pés descalços - O Nascimento de Gen, o Trigo Verde

    Keiji Nakazawa

    Conrad Editora
    2011
    286 páginas
    9h 32m
    ISBN-13: 9788576164470
    Português Brasileiro

    Gen Pés Descalços (Hadashi no Gen, em japonês) é uma história autobiográfica. Seu autor, Keiji Nakazawa, tinha 6 anos quando a bomba atômica atingiu Hiroshima, cidade onde morava com a família. Gen Pés Descalços foi primeiramente lançado em série, nos anos 1972 e 1973, na Shonen Jump, uma das principais revistas semanais de histórias em quadrinhos do Japão. É um relato comovente da difícil vida de uma família japonesa, vítima da bomba atômica, durante e após a Segunda Guerra Mundial. Teve um grande sucesso não somente entre os leitores jovens, mas também com pais, professores e críticos. Gen foi transformado em longa-metragem de animação, três filmes e até uma ópera. As edições em livro venderam mais de 5 milhões de exemplares só no Japão. Gen foi traduzido para o francês, inglês, alemão, esperanto, indonésio, norueguês, suecos e diversos outros idiomas, e lançado em mais de dez países. Foi a primeira história em quadrinhos japonesa a ser publicada nos Estados Unidos, onde foi incluída em uma lista de livros recomendados para escolas públicas. Transmitir a experiência da guerra, principalmente do sofrimento causado pela bomba atômica, para uma geração que não a conhece, ainda é um desafio complexo. Nesse sentido, Gen Pés Descalços cumpre perfeitamente essa missão ao trazer, para crianças e adultos de todos os lugares, um retrato honesto de emoções e experiências vivenciadas durante e após a Segunda Guerra Mundial.

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    Krishna Nunes25/03/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Leitura necessária

    Gen Pés Descalços é um relato de sobrevivência do próprio autor, Keiji Nakazawa, que era uma criança em Hiroshima quando a cidade foi devastada pela primeira explosão atômica da história. Nos quadrinhos ele é representado por Gen, um menino esperto, cheio de vivacidade e dono de um caráter inabalável. Nessa edição brasileira dividida em 10 volumes, o primeiro arco conta os últimos meses da vida na cidade antes da explosão da bomba. A obra deve figurar ao lado de outras que se propuseram a narrar guerras e conflitos - Maus, Persépolis, Gorazde, Palestina, Notas sobre Gaza, O Fotógrafo e outras - como uma das leituras obrigatórias dentro dos quadrinhos para compreender o século XX. Se por um lado os japoneses são normalmente pintados como racistas, xenofóbicos e com um senso de orgulho desmedido, em Gen fica claro que eles também foram tratados com uma brutalidade sem tamanho. Não é de espantar que os britânicos e americanos fossem vistos como bárbaros e demônios. Entretanto, o governo e os militares não deixaram de se aproveitar desse nacionalismo exacerbado japonês para propagar notícias falsas, induzindo a população a apoiar a guerra e se dispor a lutar até o último homem. Tudo pelo orgulho. O sol, onipresente, parece representar não apenas a bandeira imperial e a passagem do tempo, mas também testemunhar inclemente o sofrimento daquelas pessoas. Perto do final, sua presença é cada vez mais frequente, remetendo ao calor de mil sóis produzido pela explosão. As falas pacifistas do pai de Gen parecem ingênuas e a construção das personagens não é elaborada; eu não sei se isso foi proposital ou é uma deficiência narrativa do autor. Na verdade, a própria arte do mangá me pareceu simplória se comparada aos grandes quadrinhistas ocidentais que conheço e eu não sou capaz de avaliar se isso é uma característica do estilo japonês. Mas é um relato autêntico e sincero das dificuldades nos meses que antecederam o bombardeio definitivo. O drama é crescente e nós nos sentimos acompanhando uma contagem regressiva à medida que o desfecho se aproxima. Quanta miséria seria necessária para que a população se revoltasse contra a guerra e contra o imperador? Essa pergunta ficou sem resposta, porque a guerra foi finalizada de maneira abrupta e cruel. Estava claro para os americanos que quem dominasse primeiro a tecnologia para armas nucleares finalizaria o conflito, e eles investiram nisso. Nesse ponto, um erro histórico é cometido pelo autor, que coloca Albert Einstein como responsável pela bomba, quando ele na verdade não participou do projeto Manhattan. Um outro erro, talvez de julgamento, foi o de atribuir a causa dos bombardeios e as consequências da guerra somente ao excesso de nacionalismo e do clima militarista do país, e nada ao racismo ocidental e ao jogo de poder da guerra fria que se descortinava. Isso com certeza torna a narrativa bem mais palatável para os leitores ocidentais. O vigor da narrativa é tal que muitos japoneses, ao lerem o mangá, chegaram a perguntar se aquilo havia acontecido de verdade. Mas apesar de tudo, Gen é uma obra repleta de otimismo. A ideia de que tudo em breve estará melhor percorre toda a obra. "O trigo pisoteado produz raízes fortes" é uma imagem constante de resignação e esperança.

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