Um Lugar Escuro foi uma surpresa agradável. Leonardo tem uma escrita contagiante e é muito bom em prender a atenção do leitor para a história. Neste livro, ele conta a história de um homem feio, não qualquer feio, e sim "de doer" e que, por isso mesmo, sofre bullying desde quando era pequeno. Atualmente é um homem de coração bom, que foi levado a ter um pensamento não aceitável que o faz considerar, por exemplo, matar alguém. "Assim estaria fazendo alguma mudança", é a desculpa e justificativa dele.
Uma crítica à sociedade e seus valores, Leonardo transborda em todos os sentidos. Não que isso seja exatamente ruim, na verdade, é um jeito bem positivo para se criticar valores impregnados em nossa sociedade: aumentando-os é possível ver bem suas consequências internas, psicológicas e externas, nas ações. É exatamente nisso que está o encanto do livro, que permanece em cima de uma linha pequena, equilibrado. O problema de exagerar é se tornar clichê e/ou chato. No caso, o exagero não se tornou um problema. Entretanto, em alguns momentos, fica levemente forçoso.
"Essa mesma sociedade que me critica pelas mortes que causei, não critica as pessoas que me mataram. Olhe para mim, eu não sou mais nada, estou destruído pela sociedade e seu comportamento para com pessoas como eu."
Muito bem desenvolvido, conhecemos o personagem desde sua infância, já que suas memórias – e vivências – o cercam e são as principais responsáveis por fazer dele quem ele é. A frase "o homem é o resultado do meio" não poderia ser melhor empregada senão neste livro. Por isso o personagem, por mais que cometa crimes um tanto absurdos e de formas tão cruéis, é justificado em si mesmo. Ele não é só mais um louco qualquer, nem é louco por conta de drogas. Não. Ele já foi bom, ele teve um coração (e, nota-se, ainda tem) bondoso. Sua visão que foi distorcida. Por quem?
Seus pensamentos e sentimentos – da personagem – estão tão presos um no outro, tão juntos, que não resta saída a não ser viver em meio a desejos absurdos, insatisfação pessoal e com o meio no qual vive, fazendo uso de várias estatísticas para provar o quão errado algo é. Ele é feio, e por isso as pessoas lhe tiraram valor. Não o conheceram antes de se afastar, julgaram pela cor, pela aparência e o transformaram em um tipo de pessoa que qualquer um teme ao mesmo tempo em que quer ajudar, fazer algo para mudar o que, aparentemente, não poderia ser mudado.
Explorando o Brasil, o Rio de Janeiro, a diferença entre as classes sociais, os diversos meios onde uma pessoa pode ser criada, Zegur cria um incrível livro que tem muito de positivo, juntando tais elementos, interligando-os de uma forma original e tornando viável a aproximação do leitor com o personagem cujo nome, por sinal, qual é?