Provavelmente uma reação ao Jeca Tatu de Monteiro Lobato, "Juca Mulato" é um poemeto sertanista de comunicabilidade fácil e vigorosa. Publicado em 1917, conheceu até hoje numerosas edições. Juca Mulato era um caboclo feliz até o dia em que deitou o olhar na filha da patroa. Imerso agora num irreprimível sofrimento, procura num curandeiro o lenitivo. Em vão. Acreditando que só na fuga encontraria o esquecimento, abraça-se à terra em despedida e ouve da alma das coisas uma imprecação contra seu gesto extremista. Apaziguado, recobra o alento e volta ao mundo a que realmente pertence.
Juca Mulato -
Menotti del Picchia
Impressões de leitura
Dentre os 100 livros essenciais da literatura brasileira que a revista Bravo divulgou, resolvi escolher, a princípio, os títulos menos conhecidos/lidos (de acordo com o Skoob), visto que os outros já constavam na minha lista de "leitura obrigatória". Juca Mulato é um poema homônimo ao livro; é divido em nove capítulos: Germinal, A serenata, Alma Alheia, Fascinação, Lamentações, Presságios, A mandinga, A voz das coisas e Ressurreição. Cada capítulo conta uma parte da triste história de um caipira que, percebendo que fora uma vez notado pela filha do patrão, viu-se incluso num dos mais comuns dramas da humanidade: o amor não correspondido: "Juca Mulato sofre.../Esse olhar calmo e doce/fugiu-lhe como a luz, como luz apagou-se./ Feliz até então tinha a alma adormecida.../Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!/A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra/como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra..." O personagem tem plena consciência de que esse amor platônico não gerará frutos devido principalmente à sua condição social e racial. Em seus pensamentos, surge um impasse: "Sofre, Juca Mulato, é tua sina, sofre.../Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida/é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida.../Ter a um sonho de amor o coração sujeito/é o mesmo que cravar uma faca no peito/Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:/não amar é sofrer; amar, é sofrer mais!" Sendo assim, para não desrespeitar o fazendeiro e a reputação de sua amada, ele decide buscar a ajuda de um feiticeiro. Roque, o feiticeiro, começa a dizer-lhe tudo o que pode lhe servir, inclusive que se Juca quisesse, poderia até ter o corpo parecido com o do Dioguinho - alcunha de Diogo da Rocha Figueira, um conhecido matador de aluguel do oeste paulista que era contratado pelos coronéis que disputavam o poder político. Há diversas obras baseadas nesse tal de Dioguinho que abordam sobre a possível veracidade de sua existência e de seus principais crimes cometidos entre 1894 e 1897. Então, Juca Mulato pediu ao feiticeiro que lhe desse algum remédio que pudesse curar o mal de um olhar que nunca será seu. Roque diz que para esse mal não há remédio e o aconselha a esquecer-se desse amor impossível. Juca Mulato segue sua caminhada tristemente, dialoga com seu cavalo e com a própria natureza com o intuito de encontrar alguma solução para o seu dilema: deixar-se morrer finalmente ou ir em busca de um amor que lhe mereça? Esse poema foi publicado em 1917, proporcionando ao autor diversos elogios e prêmios posteriores. Menotti Del Picchia foi um dos articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922 e participou intensamente do movimento modernista, integrando também o chamado "Grupo dos Cinco", ao lado dos escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade e das pintoras Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Posso dizer que, ao elaborar este texto, tive de voltar ao poema algumas vezes devido a dificuldade de compreensão. A leitura é rápida, mas o entendimento é lento (risos). Acho interessante também dizer que antes de recomendar a leitura dessa obra, seria válido certo conhecimento acerca do contexto ao qual ela foi inserida, tanto por questões sociológicas quanto literárias (pois o poema, além de caracterizar o início do modernismo no Brasil, parece-me que também transita entre outras escolas literárias). Dito isso, afirmo que foi umas das coisas mais lindas que eu já li sobre esse tema. Super recomendo!
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