Nós passaremos em branco (Coleção Arte da Crônica #V. I) -

    Luís Henrique Pellanda

    Arquipélago Editorial
    2011
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788560171194
    Português Brasileiro

    O cronista esquadrinha a sua cidade tal qual um flâneur. Sobe a Ébano Pereira, atravessa a Pracinha do Amor e pega a Saldanha Marinho. Desce a Ermelino até a Boca Maldita, percorre o calçadão rumo à Praça Osório. Nas crônicas de Luís Henrique Pellanda, o centro de Curitiba é o cenário de histórias quase invisíveis, flagrantes do cotidiano que revelam o que há de perverso – e também de encantador – nas ruas anônimas de uma metrópole. O que pode escapar à percepção da maioria de nós é retido na memória do cronista. Assim nasce uma galeria de situações e personagens bastante particular: a prostituta que joga pétalas de rosas sobre a menina que dorme na praça; a alucinada estreia do filme The Doors no antigo Cine Plaza; um assassinato – cinco tiros na cara – bem debaixo da janela do autor; a macaca dançarina que hipnotiza o músico; a mocinha com o canivete, lembrança de um verão distante. Ao final deste volume, Pellanda apresenta um inventário de tipos fantásticos, como o Diabo da Cruz Machado, o Encosto Bilheteiro e a Desamparada do Pré-Pago, reunidos numa “Antologia dos Demônios de Curitiba”. Ali, o sobrenatural serve para iluminar o que há de humano nos seres que, como o autor, vagam pela cidade. Assombroso, na verdade, é o indiscutível talento de Pellanda para extrair lirismo do que acontece naquelas ruas.

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    Fabrício Cardoso09/04/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um andarilho lírico que, em cinco páginas, nos oferece a complexidade de um romance

    Luís Henrique Pellanda me caiu nas mãos por uma transgressão. Numa pirâmide digital cujo compromisso era enviar livros a desconhecidos, uma amiga, sabedora do meu fraco por crônicas, fez o caminho inverso e me presenteou com essa preciosidade. Pellanda é um andarilho lírico, capaz de transformar cenas banais em textos com densidade de romance. A rotina ordinária num restaurante vegetariano, por exemplo, se torna um laboratório para a observação do nosso absurdo. Destaco Ônus, um tratado de cinco páginas sobre a miséria de um mundo que semeia culpa para sufocar desejos. Com Pellanda, vamos andando por um centro de Curitiba, que, como toda metrópole, virou as costas para o lugar onde nasceu. As crônicas do Pellanda mostra que o desdém dos assépticos, com suas veleidades classistas, não apagam a complexidade da vida que resiste no abandono urbanístico. Forjado no jornalismo, Pellanda só fabula mediante confissão e bebe da realidade para nos ajudar a enxergar na escuridão. Leiam-no, já.

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