Orlando (Saraiva de Bolso #014) -

    Virginia Woolf

    Nova Fronteira
    2011
    234 páginas
    7h 48m
    ISBN-13: 9788520925171
    Português Brasileiro

    Sexto romance da autora, Orlando é publicado em 1928. Marcado pela imortalidade, o protagonista idealizado por Virginia Woolf é um jovem que nasce na Inglaterra da Idade Moderna e durante uma estada na Turquia acorda mulher. O livro acompanha Orlando por seus 350 anos de vida e reflete o interesse da autora pelo indivíduo indissociável do tempo e da história. Além do estilo apurado, de uma prosa notadamente impressionista, as ambiguidades da existência e suas relações com a condição humana estão atreladas à narrativa e costuradas por uma verve de humor magistral.

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    Arsenio Meira27/07/2014Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    LONGA JORNADA QUATRO SÉCULOS ADENTRO

    O grande Ítalo Calvino considerava a longevidade das obras como uma das marcas que permitem atestar seu valor e atribuir-lhe o nome clássico. É este o caso de "Orlando", da mítica Virgínia Woolf, uma das escritoras mais relevantes de todos os tempos. A obra atesta seu grande alcance temporal por ter sido alvo de diversas interpretações e estudos desde sua primeira publicação em 1928 até os dias de hoje. Mas não só por sua fortuna crítica que o romance é indispensável: em Orlando, os séculos sucedem-se e os inventos do homem são apresentados com pouca importância frente às vivências do protagonista. Em certo momento da narrativa, o personagem está à janela e assiste ao fantástico correr do tempo histórico na narrativa, que vai desde o advento da energia elétrica e do automóvel, até o tempo em que a obra foi concluída por Virgínia Woolf, no ano de 1928. As mudanças históricas são enumeradas, elencadas, mas culminam em algo que não pertence ao domínio dos grandes acontecimentos exteriores, e sim à vivência íntima e profunda da consciência do tempo na personagem. Dentre outras razões, é por esse viés que a obra revela sua atualidade e riqueza ao seguir respondendo a outras questões de tempos diversos pelo modo como é construída. Um exemplo é o fato de ela familiarizar-se com paradigmas tão atuais, como o do conceito pós-moderno de Metaficção Historiográfica - o romance cuja natureza apreende a autorreflexão e uma forte vinculação à história. A vida é bem menos coerente e constante do que sua narrativa e a própria existência dessa narrativa da vida pressupõe ações que completem os espaços vazios dos documentos, da memória e da percepção humana. As mudanças históricas são enumeradas, elencadas, e traduzem a consciência íntima e profunda do tempo na personagem. No caso da personagem de Woolf, a crise vivenciada não desemboca apenas em uma sensação de desajuste e de frustração. Outro elemento mágico, tão surpreendente quanto a rápida transição secular referida antes, promove uma saída. Woolf promove a transformação que se dá após o sono de sete dias vivenciado por Orlando é a abertura.Ao transformar-se em mulher, Orlando não deixa de ser quem é. Ao mudar de sexo sem intenção, altera seu futuro, mas não carrega nenhuma mácula no que tange à sua identidade. A mudança de gênero de Orlando configura-se como uma saída para a crise vivenciada anteriormente, uma superação da frustração existencial. É o surgimento de uma nova possibilidade de existir no mundo. Essa nova possibilidade não encerra na existência feminina a possibilidade de vivenciar experiências que a ela não pertenceriam. Apesar de Woolf abordar as limitações culturalmente impostas às mulheres, a mudança de gênero não limita Orlando de forma alguma. A personagem reconhece as sanções impostas à condição feminina pelos liames sociais. A saída para a existência ambígua será efetivamente a vivência da ambiguidade no que ela também apresenta de abertura à vida. Tal vivência se dará pela inescapável jornada a que a personagem vê obrigada a percorrer, refletindo a complexidade do que ocorre em Orlando, pois a obra não trata de um homem que se veste como mulher ou do inverso,trata-se de um ser complexo que é (foi) homem e que é também mulher e que, portanto, se posiciona com intensidade em ambos os lados.Nesse sentido, Orlando responde ao horizonte de expectativas de nossa contemporaneidade: o personagem resolve sua crise, não optando por esta ou aquela existência, mas por esta e aquela, ser outros continuando a ser o mesmo ser plural. Orlando representa, nesse aspecto, uma forma de resolução da contradição que se realiza através da vivência plena dessa contradição: nem apenas homem, nem apenas mulher ser em uma terceira via, sobretudo livre, colocando em pauta uma possibilidade mais plena de realizações, de vivências, de abertura à vida. Enfim, é um romance essencial, posto que evidencia a riqueza da obra de Woolf no que diz respeito à sua capacidade de responder questões ainda tormentosas para o ser humano, mensurando os valores que permeiam sua própria existência em diferentes momentos, sob diferentes horizontes de expectativas. Ao proporcionar isso, a obra apresenta-se então como resposta para inquietações humanas de seu tempo.Assim como abarca o questionamento da existência de uma verdade histórica una, o percurso de Orlando abarca também se é possível conviver com uma identidade una ao explorar os conflitos de um sujeito que aos trinta anos dá-se conta da limitação do lugar que tinha como seu na existência. Portanto, inconteste a riqueza da obra e sua atestada longevidade: obra que se mantém atual há mais de oito décadas. Resta saber a que novos problemas e concepções do ser humano Orlando servirá como uma resposta. O que será revelado nas futuras leituras da obra? O certo é que, enquanto leitura de um clássico, revelar-se-á sempre nova, pois um clássico, no dizeres de Ítalo Calvino, com que abri a resenha e com o qual fecho estas linhas: é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

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