Mario Eduardo Costa Pereira, em seu livro Pânico e Desamparo (1999),
defende a utilização da metapsicologia - como um conjunto de construções
teóricas abertas a uma constante revisão - na elaboração de teorias que possam
explicar a etiologia dos quadros clínicos dentro do vasto campo da psicopatologia,
o que levaria o debate acerca dos transtornos mentais (a exemplo do transtorno de
pânico) ?para além das concepções empírico-pragmáticas da psiquiatria
contemporânea, às quais, até agora, ele estava limitado? (Pereira, 1999, p. 29-30).
Segundo Pereira (1999), o tema do pânico já estava presente, de forma
fragmentada e não-sistematizada, na obra de diversos psicanalistas e psiquiatras
antes mesmo da classificação diagnóstica atual. De acordo com o autor, o pânico
se circunscreve no terreno do angustiante [das Ängstlichen]:
"No pensamento de Freud, o angustiante constitui uma noção ampla que reúne
fenômenos fundamentalmente heterogêneos ligados à angústia, tais como o sinal
de angústia, o terror, o horror, o sentimento de inquietante estranheza e, o caso
que aqui interessa, o pânico" (Pereira, 1999, p. 79).
Portanto, para Pereira, é preciso retornar aos fundamentos da teoria psicanalítica
da angústia para, só então, poder conceber uma abordagem psicanalítica do
transtorno de pânico. Como já realizamos uma investigação sobre a angústia em
Freud, partiremos para o estudo psicanalítico do pânico. Neste sentido, Pereira
(1999, p. 38) introduz dois pressupostos acerca do pânico:
"1. que aquilo que não pode ser simbolizado diz respeito a um gozo sexual
ancorado no real do corpo;
2. que até o momento do desencadeamento das crises, a dimensão de
desamparo da linguagem havia sido ?tamponada? naquele sujeito pela
presença concreta de ?objetos-fiadores? que permitiam a manutenção
inalterada de uma ilusão de estar totalmente protegido por um ser
onipotente, imortal e benfazejo".
O primeiro pressuposto nos remete às hipóteses freudianas iniciais sobre a
neurose de angústia e a incapacidade de elaboração psíquica da tensão sexual de
origem física, o que implicava num enfraquecimento da libido psíquica e dos
processos simbólicos. Portanto, trata-se de um ?desamparo e de falta de garantias
absolutas no que concerne a inscrição simbólica da sexualidade? (Pereira, 1999, p. 31). Já o segundo pressuposto apresenta uma situação na qual haveria uma
ilusão de proteção por parte de ?objetos-fiadores?, que garantiriam, de certa
forma, um certo amparo ao sujeito até o surgimento das primeiras crises.
Assim, Pereira aposta na noção freudiana de desamparo [Hilflosigkeit]
como hipótese de trabalho, o que lhe permite destacar o pânico do território do
angustiante e situá-lo mais especificamente como um transtorno marcado por uma
insuficiência simbólica da linguagem na tentativa de ?fornecer uma resposta
última e inequívoca para questões essenciais como a da fragilidade da existência,
a do registro do sexual no corpo e da possibilidade ? sempre presente ? de
instauração do traumático? (Pereira, 1999, p. 15). Neste sentido, Pereira (1999, p.
72) nos apresenta duas questões:
"constitui o pânico um fenômeno de pura-perda, uma fuga destinada e sem sentido
ou, ao contrário, apesar de seu aspecto caótico haveria ainda assim uma dimensão
significativa, quem sabe simbólica, a resgatar desses ataques? Qual o sentido
dessa profunda proximidade do pânico com as situações de desamparo e de
confrontação com a ausência dos guardiões todo-poderosos, fiadores da
estabilidade do mundo?"
O autor tentará responder a estas duas perguntas no decorrer de sua obra Pânico e
Desamparo (1999).
Lyra, C.E.S. Da angústia ao pânico: sonhos, sintomas e desamparo. Curitiba: Editora Appris, 2018.