O Caminho para Wigan Pier -

    George Orwell

    Companhia das Letras
    2010
    270 páginas
    9h 0m
    ISBN-13: 9788535916003
    Português Brasileiro

    Impressionante relato das experiências de George Orwell no coração da classe trabalhadora das regiões carvoeiras do norte da Inglaterra nos anos 1930, O Caminho para Wigan Pier é também uma polêmica mordaz sobre a estrutura de classes no capitalismo. "No sistema capitalista, para que a Inglaterra possa viver em relativo conforto, 100 milhões de indianos têm que viver à beira da inanição - um estado de coisas perverso, mas você consente com tudo isso cada vez que entra num táxi ou come morangos com creme." É dessa forma, unindo a pegada do inconformista com a mordacidade do literato, que George Orwell pinta as relações entre a metrópole imperial britânica e suas colônias na Ásia, na segunda parte de O Caminho para Wigan Pier, publicado originalmente em 1937. É na primeira parte, porém, que ele dá conta, com seu costumeiro estilo límpido ("de vidraça", como ele dizia), direto e vigoroso, de sua visita às áreas de mineração de carvão em Lancashire e Yorkshire, no norte da ilha britânica. A pobreza e o sofrimento atroz dos mineiros são retratados ali com um grafismo brutal, desde as condições esquálidas de moradia ao medo das frequentes ondas de desemprego que assolavam a região, colocando em risco extremo a sobrevivência física dos trabalhadores e de suas famílias. Orwell já havia mergulhado a fundo na experiência da pobreza quase absoluta, nos dois anos que viveu perambulando como mendigo e trabalhador desqualificado pela França e pela própria Inglaterra - experiência narrada em seu primeiro livro, Na Pior em Paris e Londres. A isso, somou-se o impacto desses dias passados lado a lado com os mineiros de carvão, o que resultou não só na pioneira peça de new journalism (expressão que só apareceria a partir dos anos 1960, nos Estados Unidos) da primeira parte de Wigan Pier, como também na análise amarga e muitas vezes sardônica da estrutura social, dos preconceitos de classe britânicos e das fragilidades e inconsistências da esquerda intelectual bem-nascida que lemos na segunda parte da obra. Neste livro, vemos o futuro e celebrado autor de clássicos universais já em plena florescência de seu projeto literário e existencial, que o levou a abandonar os privilégios de sua classe, a execrar qualquer forma de imperialismo e a mergulhar de corpo e alma na vida dos trabalhadores pobres e dos excluídos sociais.

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    Thiago Nascimento23/09/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "Os objetivos do socialismo são a justiça e a liberdade ". Há muita incompreensão sobre as posições de Orwell e o socialismo por ele defendido. Alguns chegam a classificá-lo como de direita pelas críticas que faz ao socialismo real soviético em "A revolução dos bichos". Erro grande que fica claro em várias de suas publicações, como Wigan. Contratado por um clube do livro da esquerda para escrever sobre a classe trabalhadora do norte da Inglaterra, Orwell escreve um baita livro sobre os mineradores de carvão e realiza, mais uma vez, uma forte crítica aqueles que se dizem socialistas, mas não se aproximam ou entendem a classe trabalhadora. Imagino o efeito que deve ter causado nos seus "patrões". Pena a edição não ter incluído o prefácio do editor dizendo que não tinha nada a ver com as posições de Orwell kkkkkk Baita bola fora da Companhia das Letras! "Na pior em Paris e Londres", "Homenagem à Catalunha" e "O caminho para Wigan Pier" representam uma trilogia em que Orwell explora sua experiência direta com a vida dos pobres! Ajudam muito a entender as suas produções mais conhecidas. O mundo cinza de Winston (1984) parece muito com as cidades mineiras, sua sujeira, precariedade. Há aqui, também, traços autobiográficos interessantes para conhecer os caminhos percorridos por Orwell e a construção das suas convicções. Para ele, os socialistas do seu tempo pensavam muito sobre as questões econômicas e esqueciam o binômio justiça e liberdade, talvez aí resida um erro para o autor. Os três aspectos andam juntos, principalmente hoje. O erro está na forma como os socialistas se expressam. Orwell crítica isso há oito décadas. Como sua má organização levavam os pobres aos braços do fascismo.

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