Solaris (Mundos da Ficção Científica #33) -

    Stanislaw Lem

    Francisco Alves, (RJ)
    1984
    228 páginas
    7h 36m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Quando o psicólogo Kris Kelvin chega em Solaris para estudar o oceano vivo – e possivelmente inteligente – que cobre a superfície do planeta, ele encontra colegas de trabalho hostis e amedrontados. Logo Kelvin descobre que esses respeitados cientistas estão sendo perturbados por estranhas aparições, que também começam a afetar sua própria percepção. O que ele vê são suas memórias mais obscuras e reprimidas, materializadas por obra de alguma misteriosa força atuante no planeta. Publicado pela primeira vez em 1961, este clássico da ficção científica, ganhou três adaptações cinematográficas, sendo que a versão dirigida por Andrei Tarkovsky em 1972, recebeu o Grand Prix no Festival de Cannes. |...| "Solaris" é um romance de ficção científica escrito em 1961 pelo autor polonês Stanislaw Lem. Filmado em 1972 pelo premiado cineasta russo Andrei Tarkovsky e publicado em 1984 pela editora carioca Francisco Alves na coleção "Mundos da Ficção Científica" #33: "(...) Que mundo é Solaris? Talvez um ser planetário. Talvez um deus. Nesse planeta pelágico, o mar é uma entidade gigantesca, imensa e poderosa, aparentemente sem face, exceto a da vastidão das águas. Na estação orbital em que se alojam os cosmonautas enviados para estudar Solaris, acontecem as coisas mais estranhas — principalmente na materialização dos pensamentos dos cientistas, de suas lembranças, fantasias e temores. Sem que ninguém saiba exatamente como, aparecem, na estação espacial humana, simulacros de pessoas que deveriam estar na Terra, de pessoas que já estão mortas... Como chegaram até ali, ressuscitaram?!! Instala-se um clima de pânico. É como a manifestação de um deus todo-poderoso atento aos mais secretos movimentos da consciência. Enquanto isso, na superfície de Solaris, o Oceano muda constantemente de forma e aspecto, tentando fazer-se compreender em múltiplas e assombrosas tentativas de comunicação". (...) 'O ser ou entidade que domina ou é Solaris trata os homens e as mulheres terrestres quase como adultos tratando com crianças: lendo os seus pensamentos e procurando transformá-los em coisas vivas, para atraí-los e satisfazê-los. Nunca se erigindo numa força hostil ou destrutiva, embora ofereça mais do que a mente humana pode suportar '.' Um planeta é constituído de um imenso oceano inteligente. Exploradores tentam entrar em contato com essa inteligência "não humana". O oceano envia a cada explorador um "visitante", réplica de uma pessoa que ele conheceu no passado. O livro relata o fracasso dessas tentativas de comunicação. (Fonte: Wikipédia)

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    Sidney Danillo de Moraes Lopes24/07/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O EREMITA CÓSMICO

    Há tempos que a ficção científica me facina, seja pela inteligências de seus textos, pelo poder de extrapolação da tecnologia atual e suas implicações na sociedade humana ou pela genialidade de certos conceitos. Mas o aspecto mais delicado e - talvez - o ponto fraco desse nicho literário é a retratação de seres alienígenas. Se pararmos pra pensar, grande parte das histórias de sci-fi criam alienígenas de aspecto puramente humanoide e relacionavel com a nossa própria biologia, talvez com membros a mais, outros sentidos e etc. Mas é justamente pra isso que de tempos em tempos aparecem gênios como o polonês Stanisław Lem, para quebrar com os paradigmas. Em 1961, com o lançamento do livro "Solaris", Lem propõe a existência de um planeta banhado quase que completamente por um oceano possivelmente vivo e inteligente. Nas palavras do proprio autor: “Eu queria criar a visão de um encontro humano com algo que certamente existe, de uma maneira poderosa, mas que não pode ser reduzida a conceitos, ideias ou imagens humanas” E imaginem que, na tentativa de contato com tal organismo, o ser humano encontra... a si mesmo! A premissa é simples: o psicólogo Kris Kelvin é enviado para a base de pesquisa localizada em Solaris mas, chegando lá, ele percebe que o clima está sinistro: o local está em completa desordem e nenhum dos 3 cientistas presentes na estação vai recebê-lo. Ele encontra o primeiro cientista, Snaut, com indícios de desequilíbrio mental, mal conseguindo concatenar suas falas. Ele avisa à Kris que Gibarian, outro cientistista que esperava encontrar, cometeu suicídio pouco tempo antes de sua chegada. Snaut também adverte Kris que há somente três pessoas na estação e que, se ele encontrasse outra pessoa, que ele não surtasse. O último cientista, Sartorius, está trancado em sua sala e quando Kris consegue falar com o mesmo, ele escuta uma voz de criança na sala. Como uma criança estaria naquele local? Ao melhor estilo Lovecraftiano, nós acompanhamos a sanidade de Kris se esvair a partir do momento que sua esposa aparece na estação. Mas ela havia cometido suicídio anos antes! Um ponto interessante para ressaltar é o clima psicodélico/ onírico conferido ao ambiente pelos dois sóis que banham Solaris, pintando o ambiente com tons de vermelho e violeta. Neste sentido, Solaris possui similaridade com "Viagem para Arcturus": os dois sóis, o clima onírico e a metáfora de usar um planeta para falar da mente humana. E é disso que a camada abaixo da superfície da história trata: uma forma de falar de fato das limitações da mente humana e da nossa inabilidade de nos comunicar com seres diferentes. Conforme o decorrer da história, o mistério vai ficando em segundo plano, para que o autor trabalhe a construção do "personagem principal" - o oceano de Solaris - através da descrição da "Solaristica", ciência criada para estudo do planeta; mas para mim, o mais marcante foram as discussões sobre culpa, depressão, problemas mentais diversos (o próprio oceano é uma alusão bem direta ao cérebro; e o protagonista ser um psicólogo nao parece ter sido uma escolha ao acaso), chegando à discussão sobre o conceito de Deus. O Oceano seria uma divindade (ou um proto-Deus)? O Oceano estaria punindo os habitantes da base ou simplesmente tentando se comunicar com eles? São tantas discussões interessantes que a história acaba por exercer um poder hipnótico no leitor. Foi assim comigo, ao menos. Tenho que abrir um parênteses aqui, para falar do Dr. Kris Kelvin: a forma como seus traumas e sua personalidade são trabalhados no livro foi fantástica. Sua história com sua esposa Harey, a forma trágica como esta se suicidou por culpa de uma omissão de Kris... E ver este trauma se repetindo na base foi doloroso: em um primeiro momento, ele se livra da aparição da esposa colocando-a em um módulo espacial e mandando a mesma para o espaço (e no passado ele a abandonou em um momento difícil). Da segunda vez que ela volta, ela mesma tenta tirar a própria vida bebendo oxigênio líquido, sendo que a Harey original havia injetado veneno no próprio corpo... Foi um baita lopping de sofrimento para este pobre psicólogo. Preciso também falar de Harey (sua projeção, no caso)... de como ela vai se humanizando aos poucos, vê-la percebendo que não era humana e sofrendo com isso, até o seu derradeiro fim... foi uma jornada de partir o coração! Por fim, mas não menos importante, tenho que comentar sobre a adaptação cinematográfica dessa obra (uma delas...), o filme de 1972 dirigido por Andrei Tarkovsky. Apesar de Lem não ter gostado (nem o Tarkovsky gostou, eu acho), devo dizer que é uma obra de arte. O diretor tomou algumas liberdades, é claro (acrescentando um começo e um fim diferentes), além de ter focado menos no oceano e mais no relacionamento de Kris e Harey mas, independente disso, ele é uma obra única, com destaque para a atuação de Natalya Bondarchuk como Harey. É até bom que livro e filme sejam relativamente diferentes, pois uma experiência acaba engrandecendo e completando a outra. Ou seja, tanto livro quanto filme são experiências únicas, capazes de invocar as mais profundas reflexões e discussões - eu assisti ao filme com a minha grande amiga Jaque e ficamos viajando nas interpretações na madrugada! Em suma, ignorem algumas resenhas preguiçosas que podem ser encontradas aqui no Skoob sobre este livro fantástico e embarquem nessa jornada soturna!! TS: Katatonia - Tonight's Decision (1999)

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