Há mais ou menos uma semana atrás, eu tive uma noite memorável. Se eu for contá-la, selecionarei o que acho mais importante hoje, e posso ir e voltar no tempo para explicar as circunstâncias, minha mente traindo os acontecimentos a cada vez que eu contá-la. E na linha contínua da minha vida, essa experiência pode ou não fazer sentido em relação a todas as outras, assim como pode ser a primeira e última vez que algo como essa noite acontece.
É assim que se narra uma experiência, e é assim que o narrador em primeira pessoa conta de sua vida como aidético - palavra que decide assumir e escancarar - na década de 1990, ao longo de alguns anos.
E esse narrador provavelmente odiaria tanto esse meu comentário quanto odeia aqueles que comentam sobre sua aparência saudável quase como se isso significasse a não-doença. Mas ele é tão lúcido, e as pessoas em seu caminho é que parecem desnorteadas, sem suas mortes anunciadas. Em meio à sua doença e às infindas readequações que ela exige, ele reage como é mesmo de se esperar que reaja, sem suprimir sua raiva nem seu engraçadíssimo e irônico senso de humor. Temos um doente que não é vítima e nem herói, e como foi bom me deparar com um personagem que assume sua humanidade tanto quanto assume sua incerteza quanto ao amanhã.
Livro curto, leitura rápida, como se conta uma experiência. O primeiro livro com o tema da AIDS que li, também. E essa vontade de deixar claro que é "ficção", esse livro sem orelha, sem introdução, como se o Jean-Claude Bernardet tivesse escrito tudo numa tacada só.
Leia e siga para o próximo.