Eu ADORO este livro.
Escrito em primeira pessoa, cada capítulo alterna os narradores: Jonathan, Bobby, Alice e Claire. Cada parte da história é contada do ponto de vista de um destes personagens. Assim, o leitor passa a conhecer não só os fatos que vão sendo narrados, mas também as reflexões, os desejos e inquietações de cada um deles. E é incrível como no decorrer do livro já se sabe quem é o narrador daquele capítulo, tamanho o talento do autor em construir estas personas e as características peculiares de cada um.
A história começa nos anos 60, percorre os anos 70 e vai até os anos 80. Há várias referências deste período: discos, filmes, músicas; e isso toca muito a memória afetiva do leitor.
ALICE é uma típica jovem do interior norte americano. Ela vai vivenciar as mudanças dos costumes que mudaram tudo na segunda metade do século XX, e perceber que o seu sonho de família perfeita não existe ("me sentia deixando de ser uma personagem principal"). Com o tempo, ela vai ter que aceitar e se adaptar aos novos comportamentos, bem diferentes dos quais foi criada.
JONATHAN é o filho de Alice. Sensível, inquieto, contestador, sempre aberto a novas experiências ("sabia que meus interesses não eram realistas nem saudáveis, mas eles permaneciam obstinadamente - eram a geografia do meu desejo" - ! ! ! ), vai se apaixonar pelo seu amigo de infância, com quem dividirá suas primeiras experiências de sexo, drogas e rock'n'roll. Vai se reinventar, procurar uma vida nova em outra cidade, longe dos pais, e tentar "se encontrar" no mundo.
BOBBY, o amigo de Jonathan, tem ambições mais modestas: quer ter um lar, uma família unida, recuperar o irmão perdido ("meus movimentos eram como um longo pedido de desculpas"), ouvir um som, fumar um baseado... E desejar simplesmente que tudo continue exatamente do jeito em que está.
CLARE é a amiga que vai dividir um apartamento com Jonathan quando este se torna adulto e vai viver em Nova York. Exótica e insegura ("achava que seria capaz de dizer, se alguém me perguntasse, exatamente o que estava fazendo no mundo") ela vai formar junto com Bobby e Jonathan um triangulo amoroso, um novo arranjo familiar numa casa próxima ao local onde aconteceu o Festival de Woodstock. Será o resultado contrário - ou o somatório - dos modelos de família que cada um dos três conheceu.
Com uma prosa sensível e reflexiva, o livro tem várias passagens belíssimas e inesquecíveis: uma festa no melhor estilo “Hair” na casa dos pais de Bobby (que termina em tragédia); um mergulho num lago gelado no começo da primavera (mais de um mergulho, na verdade); as mudanças que um novo corte de cabelo pode causar; um por do sol com os amigos dançando num terraço em Nova York... O leitor parece fazer parte da história, compartilhando as experiências, alegrias e decepções das personagens.
Este mesmo autor teve um outro livro, "As Horas" adaptado para o cinema com excelentes resultados. Infelizmente a adaptação cinematográfica de "Uma casa no fim do mundo" deixou muito a desejar... O livro é INFINITAMENTE melhor.
A mensagem principal deste livro, entre tantas, é esta: não dá para esperar para ser feliz na próxima estação, a hora de ser feliz é agora. E ainda: as mudanças acontecem e independem da nossa vontade. Temos que aceitá-las, e se isso não for possível, temos que provocar novas mudanças.
É o meu livro favorito. Já li e reli várias vezes e sempre me emociono com seus personagens: parece que reencontro velhos amigos.