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    Deixe o quarto como está - Ou estudos para a composição do cansaço

    Amilcar Bettega

    Companhia das Letras
    2002
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 8535902392
    Português Brasileiro
    3.4
    579 avaliações
    Leram850Lendo81Querem612Relendo3Abandonos16Resenhas99
    Favoritos9Desejados612Avaliaram579

    Um homem toma um trem para sair da cidade, mas não consegue deixar o perímetro urbano. Outro personagem acorda em seu quarto e percebe que está acompanhado de um crocodilo. Uma casa redesenha a própria arquitetura como se estivesse viva. Nas histórias de Deixe o quarto como está, a lógica cotidiana abre espaço para estranhos eventos e relações, que passam a impor suas próprias regras e configuram um novo mundo. Alguns dos contos, como Auto-retrato, Aprendizado e Para salvar Beth, permitem uma leitura realista. Outros adentram sem hesitação o terreno do fantástico: Hereditário, O crocodilo, O rosto, O encontro - inquietantes fantasias kafkianas narradas com o humor sutil de um cineasta surrealista. Há também relatos a meio caminho entre o real e a fantasia, como Exílio, Correria e Espera, que induzem o leitor a questionar a sanidade (ou franqueza) do narrador, para decidir sobre a credibilidade da história. Invariavelmente, o que impressiona é a habilidade de Bettega Barbosa em enredar o leitor como cúmplice na construção de estranhos e perturbadores universos.

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    Willian Coelho picture
    Willian Coelho30/01/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Não excepcional, mas funcional

    “Deixe o quarto como estᔠé a segunda obra do contista gaúcho Amílcar Bettega Barbosa (possui 3 livros de contos, 1 romance e participa de várias antologias). É formada por 14 contos do estilo realismo fantástico - que mescla elementos reais (como ambientes e personagens) a outros incongruentes. São situações que, para aquela dimensão proposta pelo autor, são coerentes, embora envoltas por uma atmosfera onírica. Os enredos têm uma conotação cerebral, parece que há uma mensagem a ser transmitida; em uma entrevista, contudo, o autor dá a entender que aquilo não foi previamente pensado, não se trata de uma alegoria. Ele também afirma que seus textos estão relacionados, formando uma unidade e, portanto, para ele, um livro de contos não pode ser dessinérgico. Algumas tramas são kafkianas (“O crocodilo 1 e 2”, “O rosto”), outras se aproximam mais da realidade (“Aprendizado”, “Para salvar Beth”). Além disso, conquanto a narrativa em primeira pessoa é a mais prevalente, dois contos são em terceira pessoa (“Autorretrato”, “O encontro”). Ou seja, de fato existe uma unidade quanto aos elementos fantásticos e reais, porém os tons de cada termo variam bastante. A linguagem empregada é simples e universal, sem excesso de rebuscamento e marcas tradicionalistas gaúchas (tão intrínsecas ao falatório e à escrita dessa população). O escritor é bastante premiado; todavia, em uma busca simples pela internet, observa-se um misto de apreciação com descontentamento para com esta obra. A maioria das pessoas foca suas críticas na ausência de exposição de que o autor se vale, e isso, certamente, é oriundo das leituras de péssima qualidade desse público. É deveras corriqueiro que os indivíduos criem uma espécie de “estrutura de enredo ideal” e, com isso, acabam repudiando todo o resto. Existem muitas formas de literatura e cada uma deve ser lida dentro do seu contexto e da sua proposta: obviamente não se pode traçar uma comparação entre uma epopeia e uma prosa moderna. Infelizmente, a literatura está, assim como inúmeras outras formas de arte, se deteriorando: o público, cada vez mais embotado por horas nas redes sociais, busca narrativas rasas e com exposição barata.

    15 curtidas

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    3.4 / 579
    • 5 estrelas10%
    • 4 estrelas30%
    • 3 estrelas38%
    • 2 estrelas17%
    • 1 estrelas6%
    Amilcar Bettega Barbosa profile picture

    Amilcar Bettega Barbosa

    Formado em Engenharia Civil, é mestre em Literatura Brasileira. Teve trabalhos publicados nas revistas “Ficções” e “Blau” e no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, entre outros. Recebeu o prêmio Açorianos de Literatura – categoria conto e autor revelação (1995), a Bolsa para autores brasileiros com obras em fase de conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional (1999) e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2005 por “Os lados do círculo”. Participou, como escritor residente, da Ledig House International Writers’ Colony, a convite da Ledig-Rowohlt Foundation (Estados Unidos da América, 1999). Mora, atualmente, em Paris. Sua literatura é marcada por um grande domínio técnico em que se deixa perceber uma autoconsciência crítica, como diz o crítico José Geraldo Couto, alguns de seus contos se filiam ao chamado realismo fantástico (estabelecendo uma intertextualidade com o escritor argentino Julio Cortázar), em que acontecimentos inesperados tomam conta dos personagens e/ou ambientes de forma "realista". Não se filia a certa literatura brutalista que tem marcado esse início de século XXI, seus textos deixam claro uma preocupação maior com o trabalho de exercício da escrita, com frases bem polidas e poéticas; segue um caminho próprio dentro da nova literatura brasileira, construindo uma obra que se mantém ligada através de personagens à procura de um sentido para se viver num mundo cada vez mais caótico de sentidos e significados.

    6 Livros
    9 Seguidores
    Rio Grande do Sul, Brasil

    Amilcar Bettega Barbosa