O livro é praticamente um diário da escritora dinamarquesa Karen Blixen, mais conhecida pelo pseudônimo Isak Dinesen. Não sei dizer aqui se tudo o que ela descreve foi factual ou se há ficção misturada, mas tenho quase certeza que se trata de um livro de memórias.
A narrativa é centrada nas impressões da autora, que tinha deixado a Europa na segunda década do século XX para morar numa fazenda de café no Quênia, propriedade do seu marido. O que o leitor tem é o olhar bastante particular, perspicaz e sensível, de uma colonizadora europeia num ambiente completamente diferente do qual foi criada. E neste ambiente, a princípio hostil, ela vai ter que se adaptar, e esta adaptação determinará sua própria sobrevivência.
A autora disseca os costumes dos negros nativos e dos europeus colonizadores, traçando impressões sobre a força da natureza versus a persistência humana frente às intempéries, a relação dos homens com os animais selvagens, divagações noturnas, solidão, saudade, etc.
Com o passar do tempo, o sentimento de inadaptação dá lugar ao reconhecimento de que é possível fazer da fazenda o seu novo lar. A convivência com os africanos faz a autora reconhecer nos nativos sentimentos iguais aos dela: amor, perda, dor e resignação.
O livro poderá frustrar quem espera um livro tão romântico quanto o filme Entre Dois Amores, a adaptação para o cinema com Meryl Streep e Robert Redford. Mas Isak Dinesen é uma escritora extraordinária, não por acaso uma das favoritas do Truman Capote. Sua prosa faz o leitor viajar e se sentir no mesmo local de observação da autora, constatando suas mesmas percepções e reflexões.
Vale muito a pena ler e se emocionar com esta aventura no continente africano.
Trecho (pg. 92/93 da minha edição, CosacNaify):
Se é que estou, como creio, familiarizada com uma melodia da África, da girafa e suas listras iluminadas pela lua nova, dos arados nos campos, dos rostos suados dos colhedores de café, será que a África também conhece uma melodia minha? Será que o ar sobre a planície estremecia com uma cor que eu estivesse vestindo, ou as crianças inventariam um jogo no qual surgia meu nome, ou, ainda, a lua cheia lançaria uma sombra parecida comigo sobre o cascalho diante da casa, e as águias de Ngong me buscariam com seus olhos?
Um dos melhores livros que já li.