Amok e Xadrez (Mestres da Literatura Contemporânea #77) -

    Stefan Zweig

    Record / Altaya
    1997
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-10: 8501154911
    Português Brasileiro

    Em Amok, de 1922, um médico conta como o pedido de uma grávida para que realizasse um aborto o precipitou em uma espiral de perdição. Em Xadrez, de 1941, o autor, às vésperas de fugir para o exílio, parodia o nazifascismo; em um navio rumo a Buenos Aires, Mirko Czentovic, campeão mundial de xadrez, enfrenta Dr. B., austríaco em fuga do regime nazista. Por meio do embate enxadrístico, discutem-se a resistência humana às adversidades, a loucura e a derrocada do mundo frente ao totalitarismo. Nos textos, está presente o melhor de Zweig - a descrição psicologicamente profunda do ser humano em conflito com o mundo e consigo mesmo, bem como a reflexão sobre a morte.

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    Luiz Pereira Júnior10/06/2021Resenhou um livro
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    Chocolate meio amargo...

    Como é bom encontrar livros bem-escritos, sem grandes voos de linguagem, mas com profundidade a ponto de nos fazer refletir sobre o que pensamos, sobre o que sentimos, sobre o que somos... E isso é o que ocorre nessas duas obras curtas de Stefan Zweig: “Amok” (a história de um amor obsessivo, que leva o enamorado à perdição – e quantas vezes essa mesma história parece ter sido contada e recontada ao longo dos tempos, mas, quando bem escrita, por um autor de talento, transforma-se em algo novo, original, diferente) e “Xadrez” (uma disputa desse esporte contada de um modo aparentemente superficial, à primeira vista ou na primeira camada da narrativa, como preferir – mas que também reflete sobre o autoritarismo, o preconceito, o orgulho, a riqueza e as diferentes formas de tortura que o ser humano é capaz de infligir a outro ser humano). Constam também do livro (edição da Record/Altaya) alguns trechos do diário que Zweig escreveu durante sua vinda e sua permanência no Brasil e seu deslumbramento pela paisagem e pela miscigenação brasileiras (algo que já parece ter se tornado um lugar-comum em relação aos viajantes que aqui chegam), mas surpreende ver a franqueza do relato de quem não gosta de algo ou de alguém (a menção a São Paulo como uma cidade “feia, desordenada e inacabada” e a referência a Lasar Segall como um “mau pintor” são exemplos do maniqueísmo do autor e de sua opinião franca de como as coisas e pessoas chegaram aos seus olhos). Duas narrativas curtas que mostram a profundidade da alma humana, mesmo naqueles espíritos que julgamos vazios, sem graça, ingênuos. Mas não se engane: os protagonistas (ao contrário do autor, pelo visto) são retratados em todos os seus defeitos também (a referência ao preconceito racial – principalmente em “Amok” – chega a desconcertar o leitor pela naturalidade com que é relatado, sem que seja necessária uma linguagem panfletária ou inflamada para mostrar ao leitor como era o pensamento da época – e mostrar também que esse mesmo preconceito permanece aonde quer que se vá). Duas obras com o gosto de chocolate meio amargo: é chocolate, sim (doce, delicioso, agradável) mas também com o amargor característico das muitas ações que fazemos (e que também fazem conosco)...

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