É um livro muito interessante e também desconhecido, que fala sobre o episódio de Canudos de maneira informal e até romantizada, diferenciando-se nisso do famoso "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Informação importante: "O rei dos jagunços" foi publicado em 1899 (dois anos antes da publicação de Euclides, em 1902) e o autor, Manuel Benício, foi também militar e jornalista correspondente no campo de batalha.
Pelo que entendi, o relato de Benício não foi tão bem aceito como o de Euclides, por ter partes fundamentadas em relatos informais (coronel João Brigido foi uma das principais fontes para o autor), que não receberam muita credibilidade, sendo caracterizados como literatura de ficção. Talvez o fato tenha surgido por ter se posicionado de maneira crítica ao exército em seus textos iniciais, quando correspondente jornalístico, ao falar de equivocadas estratégias militares. A leitura de textos adicionais dão conta que suas notas deixaram de ser publicadas no jornal.
Estou lendo na versão publicada pelo Senado Federal em 1997, que preserva o texto original de Benício. Basicamente, traz a xérox página por página do livro de 1899. É uma leitura com linguajar antigo, mas não tem sido enfadonha ou incompreensível, e isso se deve ao estilo mais informal do autor. No início pensei que seria complicada, pois Benício inicia com concepção rebuscada no texto "Prenoção", mas ainda bem que ficou por aí.
A seguir, vemos um retrato peculiar da vida sertaneja. O autor passa uma imagem de tenacidade e busca de melhores oportunidades, separando-os do olhar como bandidos, coisa que relega aos cangaceiros (fazendo um paralelo). Ainda na primeira parte, Benício conta a história dos Maciéis (a família de Antonio Conselheiro) e o quadro é de desordeiros e metidos à bandidagem, com histórias de violência, prostituição e cangaço. O sobrenome era sinônimo de coisa ruim. Os pais do Conselheiro tem fatos inusitados registrados (seria ficção? é a questão no livro), como uma história em que vários familiares morreram e outros partiram para vingança. A família tinha rivalidade com outra, os Araújos, e isso pode ter contribuído também para uma imagem negativa. Nesse meio destoa o Conselheiro, que teria vida pacata e metida à religiosidade. Nos fatos sobres ele, a descoberta que era traído, seguindo-se o abandono da esposa sem exercer justiça como recorrente no sertão (aquele negócio criminoso e estúpido de lavar a honra...).
O autor apresenta o ardor religioso na época e isso ficava em paralelo com profetas apocalípticos que rotineiramente apareciam. A própria igreja católica é criticada e citada como aproveitadora em situações semelhantes ao longo da história sertaneja. O Conselheiro vai sendo mostrado com um tipo peculiar, reduzido a um louco e fanático, mas que transmitia confiança aos malfadados sertanejos. Aos poucos foi conquistando terreno e inimigos no clero, que também contribuiu para que tivesse uma concepção demonizada.
Uma parte que achei interessante na leitura foi a citação de um de seus sermões. O homem assumia uma postura temível, misturando profecias apocalípticas com pragas terríveis aos desviados de sua mensagem. Realmente devia ser muito impactante e folclórico, com chamada à uma vida de ascetismo e fervor religioso.
Ainda estou no meio do livro e, por hora, foram as coisas que até aqui se destacaram em minha leitura.
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Na primeira parte do livro encontramos também os capítulos "Vida Sertaneja" e "Canudos". O primeiro descreve o povoado em alguns costumes rotineiros, onde havia a imposição à uma vida correta (segundo o Conselheiro). Haviam pequenos conflitos por conta disso, como a descoberta dos hábitos de um sertanejo, que se distanciava do povoado para se masturbar. O Conselheiro era rigoroso e vigilante em sua postura e isso despertou conclusões maliciosas para alguns em relação ao fato de não se envolver com mulheres e até evitar olhar para elas.
No outro capítulo, além da vida em Canudos, são citados cooperadores do líder, tratados como apóstolos, e o que achei mais relevante foi a questão do apoio de Canudos à monarquia. Para Benício a simpatia pelo antigo governo se devia ao zelo pela religião. O autor disserta que nem tinham noção do que era e essencialmente a viam como um perigo à igreja, pois o estado havia se separado dela e isso provocaria a disseminação de maus costumes ou doutrinas, em sua concepção, por qualquer um. Outro ponto relevante na visão deles era que a República estabeleceria a cobrança de mais impostos e consequente servidão, maior do que a que já pressionava os sertanejos em seu desamparo.
Interessante que Benício cita que a Igreja Católica o apoiou no início (por conta de seus interesses), mas depois retirou esse apoio, o Conselheiro foi ficando cada vez mais isolado, sendo enxotado de vários locais, até a reclusão em Canudos.
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Na segunda parte o autor aborda a guerra e tece considerações sobre estratégias erradas do exército que levou à derrota inicial. Houve subestimação do povoado no número de pessoas para a batalha e armamento rústico, além de não estarem preparados para o cenário agressivo do sertão, onde padeceram fome e sede.
Entre os relatos, a visão de Canudos à noite, com tochas, burburinho de pessoas e lamentos pelos mortos. Essas visões me fazem viajar nesse dimensionamento...
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Fiz a leitura hoje de "Os jagunços de Canudos", na segunda parte. Há de supor, pelo título, a descrição de bandidos cruéis e sanguinários em disposições assassinas e indômitas para o governo. O texto, porém, surpreende e mostra histórias pitorescas da população de Canudos, melhor dizendo, de Monte Santo. Essa é uma diferenciação importante em relação à obra de Euclides da Cunha. Não é um olhar externo, de entendimento antropológico, mas uma aproximação informal com o povo, relatando seu cotidiano, que está muito distante da concepção demonizada disseminada Brasil afora na época (talvez ainda hoje para alguns). O autor caracteriza o povoado como sendo de maioria feminina (na proporção de três para cada homem); fala do modismo que tinham em ostentar sombrinhas; do contentamento em ter pelo menos um vestido de chita; do negro metido à feitiçarias tentando impressionar com sapos e cobras a seus ouvintes; da boataria (como o namoro escondido do João Abade com uma moça); do louco Jararaca (que transitava nu montado em um jegue); das filhas do Antonio Félix (bonitas e cobiçadas, narrando-se um episódio em que tiveram um embate com Jaracaca por ter roubado suas roupas quando tomavam banho no rio, seguindo-se o inusitado embate entre as moças nuas e o louco também no estilo Adão) e da história surreal contada pelo Raymundo (sobre uma caçada na Amazônia, em que enfrentou um jacaré e uma onça, em uma narrativa pra lá de entusiasmada e sensacionalista no melhor estilo de causos de caçadores). Enfim, são mostrados homens e mulheres de uma vila como outras (mas certamente não era uma vila qualquer...). Destaque também para a procissão entre as duas igrejas do povoado (nova e velha) onde havia um prazer local (carregando-se as imagens de N. S. das Dores e Bom Jesus dos Passos).
O autor não deixa de citar planos de investida, como a intenção de dar cabo do coronel Moreira Cesar (a quem chamavam de Corta-Pescoço). O militar acabou mesmo sendo morto, como se viu na história dessa famigerada guerra. E o relato do capítulo acaba com os sertanejos indo dormir... em meio ao fedor dos mortos ainda por enterrar...
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Que impressionante! Terminei hoje a leitura e os relatos derradeiros de Canudos falam de heroísmo e perversidade em situações surreais. O autor enaltece o Conselheiro, como um consolador de desamparados e assim tece opinião incisiva e clara em seu olhar sobre essa história.
Veja o texto da pág. 399 dos originais: "...ninguém o pode pois chamar de charlatão e ambicioso, quando com a morte, mostrou ser um verdadeiro crente e mártir da cauda que, boa ou má, apostolou. Ele era um convicto; dirão que convicto no erro, mas aos que erram ensina-se a verdade e não se mata. Simples, sem cultura intelectual, modesto, sem aspirações no mundo, humilde e bom, ele sabia consolar os desesperados e aconselhar para o bem, de sorte que criminosos, velhacos de todos os sexos, homens e mulheres de todas as posições sociais ouviam-no cheios de contrição e arrependimento, enveredando depois pelo caminho das virtudes. O seu nome será inolvidável na crônica nacional."
Esse texto assume maior impacto no cenário que o autor descreve, sobre o triunfo do exército, arrasando impiedosamente a cidade em um terrível incêndio, em meio a saudações à República e degolando os últimos sobreviventes. O cenário da cidade é terrível, com uma invasão de urubus...
Vemos que Benício teve olhar diferenciado de Euclides da Cunha, que fez citações como "entes dos mais diversos gêneros antropológicos", "aldeia sinistra" e "povoado maldito" (explícitos na obra "Diário de uma Expedição").
Até chegar ao final, a história passa pelos igualmente impressionantes capítulos:
"Atenção!" onde se avulta a derradeira expedição à canudos. O texto fala da ansiedade dos sertanejos, mas também da convicção de vitória, baseada na presença do Conselheiro. Eles acreditavam que enquanto fosse vivo nada lhes atingiria e a presença do líder era tão impactante entre eles que quando se retirava por algum motivo surgiam desentendimentos. O exército se aproximava e os sertanejos redobravam suas esperanças e convicções...
O texto descreve também que os sertanejos mataram os poucos prisioneiros de guerra que tinham.
"Quarta expedição" e "Primeira Coluna" trazem relatos do exército em forma de diário. O autor ressalto o clima de aflição na capital do país por conta dos fracassos anteriores e a população tinha promovido badernas em retaliação. A vitória seria uma firmação da República. Muitos saudavam o exercito pelo caminho e ofereciam algum tipo de ajuda.
"Artimanhas e deserções" mostra o clima em Canudos com a derrota iminente. A fome e sede tornaram-se recorrentes pelo isolamento imposto pelo exército. Chamou-me a atenção uma artimanha de vestir o couro de vaca ou ramagens para chegar ao rio. Ardil que foi descoberto pelo exército. Houve fugas de Canudos e instalou-se uma certa desordem, com alguns homens tentando dar vazão aos desejos até então ocultos, como o João Abade em sua paixão luxuriante pela filha do Antonio Felix.
"Começo do fim" é um texto impressionante e emotivo. Chocante os relatos da morte do negro Timóteo (sineiro na igreja), da tentativa de rendição de Beatinho (um dos serviçais religioso) após a morte do Conselheiro. Intermediou e trouxe algumas pessoas consigo, sedentas de água, que foram levadas para trás do morro e sumariamente degoladas (crianças, velhos, mulheres, doentes...). Macota, uma das mulheres, soube do fato e de braços nos quadris disse umas verdades ao exército, sobre a covardia, e o livro conta também o mesmo destino cruel que teve, ao ser levada para o mesmo local (onde puseram os dedos em suas narinas para esticar o pescoço...).
Outro que chamou minha atenção foi Tiago. Era cruel e dado a tiranias no combate ao lado do Conselheiro. Foi ele quem relatou aos últimos sobreviventes de Canudos o que ocorria no morro e também foi um dos poucos que sobreviveu no fim de tudo. Em último relato do livro ele ressurge, quando se passaram alguns meses, e uma pessoas visitavam o local cheio de ossos e corpos mal enterrados. Bizarramente um deles de forma irônica fala em comer alguma melancia que crescia naquele lugar. Tiago ressurge em condições decadentes e relata fatos de Canudos que foram inspiração também para esse livro.
A obra termina quando o louco Jararaca ressurge também em seu jumento, passeando naqueles cantos de loucura... muito maior que a dele.
Gostei muito do livro. Me comoveu e fez refletir em alguns valores.