Sertanílias - Romance de Cavalaria

    Elomas Figueira Mello

    Vitória da Conquista
    2008
    296 páginas
    9h 52m
    ISBN-13: 9788590826200
    Português Brasileiro

    Sertanílias é a narrativa de um anti-herói, Sertano, um vaqueiro culto que lê Virgílio, Flaubert e Herculano sem recorrer a dicionários e que sabe das coisas, um bocado delas que habita mundos de físicas e matemáticas conhecidas e não conhecidas. Elomar chama à existência em Sertanílias um gênero há muito tempo adormecido nos dias de Alexandre Dumas - o romance ou novela de cavalaria. Um mundo criado para abrigar as personagens que povoam a sua obra. História de cavaleiros, pastores que falam de monjas guardiãs de estrelas, de extintos tropeiros, cujas ondas imagéticas ainda mesmo que envoltas pela névoa cinzenta dos anos, se vão errantes por estradas e areias de ouro: o Sertão Profundo, temática elomariana estudada e discutida nos centros acadêmicos em teses de doutorado e pós-doutorado nos mais variados campos da ciência, como Psicologia, História, Letras, Antropologia, Filosofia e Música. O romance, primeiro de uma série, promete marcar a literatura contemporânea pelo discurso contundente, pelo resgate de um gênero há muito tempo esquecido, pela narrativa dinâmica e inovadora que se constrói numa estrutura peculiar - roteiro para cinema e romance. Tudo é tecido numa fusão harmônica, uma trama que instiga a leitura, que provoca a pesquisa. Um texto que vai buscar em expressões latinas o purismo da língua, que arranca do anonimato e traz para o palco da lingüística o dialeto "sertanez", em diálogo constante com o vernáculo. Uma obra que promete chamar a atenção da crítica literária e dos pesquisadores pela quebra de paradigmas, não só na sua forma e conteúdo, mas principalmente por trazer à tona questionamentos sobre velhos conceitos e teorias. Sertanílias traz uma narrativa que discute o ser e o existir, o espiritual e o material sob um novo olhar, que aborda desde a formação do homem, perpassando pelas teorias de Euclides, à física quântica. Uma viagem pelos castelos medievais, que leva ao encontro de príncipes e princesas, que faz adentrar o mundo dos tropeiros, que leva ao futuro no galope do cavalo "alado" do vaqueiro Sertano.

    Resenhas (2)Ver mais
    Pedro Rezende picture
    Pedro Rezende18/12/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    “Sertanílias” e a criação da memória de um sertão medieval

    “Sertanílias”, de Elomar Figueira Mello, é um romance de cavalaria contemporâneo escrito no formato de roteiro de cinema e ambientado no sertão do Nordeste. Esta obra, apesar de pouco conhecida, sempre esteve ao meu lado, principalmente pela longa trajetória que percorri com leituras e releituras para escrever a minha dissertação de mestrado. De tudo que aprendi e ainda poderei aprender sobre a obra de Elomar, o encanto maior é a memória da sua literatura. Sendo assim, esse será o tema dessa resenha. Contudo, o que é a memória? Alguns podem concordar, outros podem refutar, mas a crença que possuo sobre essa abstração humana é de que memória é invenção. Para esclarecer melhor essa minha exposição, cito “Sertanílias”, pois, para quem conhece a vida de Elomar, sabe o quanto esta se apresenta na sua obra, deixando explícito uma relação entre a ficção e a realidade. Por conseguinte, a estrutura textual intercala a jornada do protagonista Sertano em busca dos irmãos Urano e Zurai, que foram sequestrados e aprisionados, com quatro entrevistas nas quais aparece um personagem chamado Elomar sendo entrevistado. Ambos nunca estão juntos na mesma cena, o que demonstra uma distância espaço-temporal entre eles, apesar de, como esclarecerei adiante, relacionaram-se. Elomar-personagem, nessa contenda, não é Elomar-autor. Apesar de terem o mesmo nome e de se apresentarem com as mesmas características, não são as mesmas pessoas. Dessa forma, o que há, dentro do livro, a partir das entrevistas, são escritas de memórias que relembram, por exemplo, o gênero autobiográfico. Nessa escrita, o texto literário dá uma ênfase ao “Eu” e sempre se coloca no centro da história, criando um universo individualista e essencialista. Por outro lado, esse devaneio de si mesmo ganha novas roupagens na obra de Elomar, tendo em vista o outro personagem mencionado: Sertano. Quando ele aparece, reconheço o sertão físico, real e que alude à geografia do Nordeste, mas, além desse traço realista, existem aspectos mágicos e maravilhosos que preenchem esse plano literário de criaturas desconhecidas e mundos paralelos. Diante dessa observação, reconheço que Elomar-personagem fala, nas entrevistas, sobre sua memória, e deixa pistas do quanto muitas das suas ideias não são vivências que já existem, mas vivências que anseia existir. Elomar, durante sua vida, sempre foi apaixonado pela cultura ibérica-medieval, tendo bastante apreço aos cantadores e menestréis, assim como às novelas de cavalaria. “Sertanílias”, de certa forma, apresenta essas projeções da vida do autor. Elas, como já pontuei, não são memórias do que viveu, mas do que deseja viver, restando à literatura registrar suas invenções, saindo da autobiografia - reflexão sobre si mesmo - e entrando na autoficção - criação de si mesmo. Sendo assim, Sertano une suas grandes paixões: o sertão (vaqueiro) e a Idade Média (cavaleiro). Esse personagem não é só uma mera criação para compor uma história, ele é a transfiguração de memórias que são projetadas por Elomar e as materializa na ficção a fim de dar vida ao que não pode existir no plano da existência. Portanto, como esclareci no começo: a memória é uma invenção. Elomar utiliza “Sertanílias” para materializar sua imaginação criadora de um mundo que não se basta como ele é, ou seja, o que existe e o que vive (e viveu); mas pode ser maior a partir daquilo que se pensa, cria e inventa.

    2 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.8 / 10
    • 5 estrelas50%
    • 4 estrelas10%
    • 3 estrelas10%
    • 2 estrelas30%
    • 1 estrelas0%