Em seu texto "O fim para o qual Deus criou o mundo", Jonathan Edwards busca inquirir qual o fim maior de todo o universo, com a minúcia lógica típica do raciocínio de um filósofo, o comprometimento com a Escritura típico de um teólogo, e o coração ardente pela glória de Deus típico de um adorador.
Na primeira parte do livro ele explica termos que utilizará ao longo da obra, diferenciando, por exemplo, fim "último" de fim "intermediário", e fim "principal" de fim "secundário". Na segunda parte, ele perscruta o que podemos deduzir sobre o fim do universo a partir de bases filosóficas e do raciocínio aplicado à verdade revelada. Na última parte, por fim, Ele busca a partir da exegese das mais diversas partes da Escritura buscar o que a Palavra nos diz ser o fim de toda a criação: a glória de Deus.
Na via filosófica, se destaca o intelecto monumental de Edwards e a sua capacidade de derivar conclusões logicamente coerentes das premissas reveladas na Escritura, e então derivar novas proposições dessas conclusões, refutando, no caminho, possíveis outras conclusões, para, ao final de tudo, atingir a conclusão de que o único fim último e maior possível de toda a criação é a glória de Deus.
Na via teológica, Edwards não poupa referências de praticamente todas as áreas da Escritura, com exegeses responsáveis e comprometidas, em raciocínios que abundam em referências bíblicas, evidenciando a intimidade de Edwards com a Escritura.
Mas, por trás e em meio e emergindo de tudo isso está o coração adorador de Edwards, nos trazendo as implicações para nossa vida cristã.
John Piper, por sua vez, que nos guia pelo texto com comentários explicativos e uma introdução extremamente relevante, não falha também em tornar essa obra, que em muitos momentos pode ser maçante para o leitor moderno pela forma de sua escrita, mais palatável para aquele que deseja que essas verdades teóricas produzam o efeito devido no coração.
Como diz Piper, a verdade de que não somos nós o fim último de todo universo, mas a glória de Deus, causa uma mudança diametral em todo o fluxo de nosso pensamento teológico, de uma perspectiva antropocêntrica, para uma perspectiva absolutamente teocêntrica, no que diz respeito aos conceitos mais básicos do cristianismo: santidade, adoração, justiça, verdade, moral, existência, amor, e evangelismo. Uma obra extremamente recomendada para todos que desejam conhecer a Deus, e absolutamente indispensável para qualquer teólogo, pastor, ou aspirante. Deixo abaixo algumas citações do texto para amostra.
Jonathan Edwards:
"O fim da criação é que a criação possa glorificar a Deus. Agora, o que é glorificar a Deus, senão regozijar-se na glória que Ele revelou? A felicidade da criatura consiste em regozijar-se em Deus, pelo que Deus também é magnificado e exaltado".
"A retidão moral de Deus deve consistir no devido respeito a coisas que são objeto de respeito moral; isto é, para seres inteligentes capazes de ações e relações morais. E portanto deve principalmente consistir em dar o devido respeito àquele Ser a quem o maior respeito é devido; Pois Deus é infinitamente digno da maior consideração possível. Logo, se retidão moral do coração consiste em prestar o devido respeito do coração àquilo que é devido, o dever requer que uma consideração infinita seja prestada a Deus; e negar essa consideração suprema seria uma conduta infinitamente indevida. Dessarte, segue que a retidão moral consistente na disposição, inclinação ou afeição de Deus consiste principalmente em uma consideração por Ele próprio, infinitamente acima de sua consideração por todos os outros seres; em outras palavras, a sua própria santidade consiste nisso".
Algumas implicações trazidas por Piper:
"Portanto, Deus é tão comprometido com a minha eterna e sempre crescente satisfação nele tanto quanto ele é comprometido com sua própria glória".
"Qual a essência do mal? É abandonar uma fonte de águas vivas por cisternas rotas. Deus recebe nosso desprezo e nós recebemos a morte. Estas são uma coisa só: ao escolher a miséria disfarçada de iguaria nós debochamos do Deus que dá a vida".
"Nossa tarefa evangelística não é persuadir pessoas que o Evangelho foi feito para as necessidades que eles sentem, mas que eles foram feitos para a totalmente satisfatória glória de Deus expressa no Evangelho".
"Similarmente, a pregação cristã, como parte da adoração coletiva da igreja de Cristo, é uma exultação expositiva nas glória de Deus reveladas em sua Palavra, designada para atrair o povo de Deus dos prazeres enganadores do pecado para o caminho sacrificial de satisfação obediente nEle".
"A essência da adoração coletiva autêntica é a experiência coletiva de profunda satisfação na glória de Deus, ou um temor de que nós não tenhamos essa satisfação e um grande anseio por ela".