A obra tem como ponto de apoio um episódio curioso: o envio, por parte do autor para amigos, de uma pintura em que o "ícone de Deus" acompanha, com os olhos, todo aquele que o fitar. A partir daí é que se desenvolve a reflexão presente em "A visão de Deus".
Nicolau de Cusa, a partir do ícone, demonstra como Deus (que está além do finito e do infinito) acompanha todos e cada um dos seres. E servindo-se daquela imagem, bem ilustra isso: não importa que um homem, observando o ícone, parta da esquerda para a direita, e outro homem, que também o observa, ande em sentido contrário simultaneamente: ambos são "observados" pelo ícone.
O autor tem ciência plena que se trata de uma ilusão conferida pela pintura, mas que explica o que seria um dos "atributos" (em linguagem aproximada) de Deus. Na mesma direção de uma teologia apofática (lembrando o Pseudo-Dionísio), o autor ressalta a impossibilidade de se fornecer um conceito sobre a natureza divina e os limites do intelecto humano. Quando muito, podemos chegar aos muros do Paraíso, onde os contrários coincidem, mas não ultrapassamos essa fronteira.
Surge então Jesus Cristo como mediador, trazendo em si a natureza humana e a divina, mas não como se houvesse uma divisão entre ambas. Também isso é tratado pelo autor.
Sobre a edição em si, é de se sublinhar que o prefácio (escrito por Miguel Batista Pereira) é perfeitamente dispensável. Em que pese o conhecimento do seu autor, soa um tanto deslocada para essa edição. A introdução (escrita pelo tradutor João Maria André), pelo contrário, é extremamente didática e traz ótimos esclarecimentos sobre o autor e a obra.
"A visão de Deus" não apresenta grandes dificuldades para o seu leitor, ao contrário da "Douta ignorância". Também traz passagens belíssimas, de uma riqueza poética cativante.