Ingenuidade e beleza. Exercício de escrita. O Saramago inaugural. Essas são algumas das definições que eu utilizaria para descrever com facilidade este romance publicado postumamente. "Claraboia" não tem uma trama engenhosa nem personagens marcantes e não traz a pontuação característica saramaguiana. A história se passa em um modesto prédio de Lisboa, o que faz lembrar, em um primeiro momento, de "O cortiço", de Aluísio Azevedo. Mas as coincidências param exatamente aí. O livro do português é muito simples, mas alto lá: simplicidade quer dizer apenas isso, uma definição que se aplica quando queremos classificar algo que não apresenta dificuldades.
Escrito na década de 1950, este livro é uma ótima porta de entrada para conhecer o autor. Por questões de força maior, o primeiro livro do Saramago que peguei para ler foi "História do cerco de Lisboa", pois era uma das leituras obrigatórias exigidas pelo vestibular da universidade em que prestei meu primeiro concurso, aos 17 anos. À época, não passei da metade do livro. Eu achei o romance complicado e arrastado, mesmo que sua premissa soasse interessantíssima. Portanto, "Claraboia" foi de fato a primeira leitura em que encarei de verdade a obra de José Saramago. E reforço: é uma excelente maneira de começar a lê-lo. As ideias pelas quais ele ficaria conhecido estão todas aqui, engatinhando. O feroz questionamento a Deus aparece nos singelos diálogos entre o sapateiro Silvestre e o andarilho Abel, tema que ganharia fôlego anos depois especialmente nos livros "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "As intermitências da morte" e "Caim". A eterna inquietação do autor em relação à Península Ibérica, seu passado e suas origens, também aparece durante a tensão vivida pela espanhola Carmen e seu marido português Emílio, tema ao qual retornaria em "A jangada de pedra". E, como não podia deixar de ser, o sensível olhar de Saramago aparece em suas personagens femininas, sempre presentes em suas histórias desde o início, principalmente nos diálogos entre Adriana e sua irmã Isaura, mas também no núcleo de Maria Claudia e Lídia.
A obra de Saramago trata das questões humanas antes de qualquer coisa e seu "Claraboia" é inegavelmente o romance de um escritor em aperfeiçoamento. No entanto, essa característica não diminui o valor desta história, muito pelo contrário, aumenta a curiosidade do leitor em saber onde ele poderia chegar - e anos depois a Academia Sueca ratificaria o posto que o mundo já sabia que ele iria ocupar pela eternidade.
Extremamente recomendável, "Claraboia" é uma ótima maneira de entender os assuntos que interessavam desde o princípio a privilegiada cabeça de José Saramago.