Bestiário -

    Julio Cortázar

    Edibolso
    1977
    109 páginas
    3h 38m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Uma viagem para dentro de universos paralelos que existem em nós mesmos. Julio Cortázar é um dos grandes mestres em descobrir atalhos e nuances através do reflexo das situações vividas por seus personagens. O fantástico da ficção se mistura com nossa realidade criando um elo inseparável. Bestiário, livro que pontua sua carreira, traz em seus contos toda essa linha tênue que separa "o que é" do que "até poderia ser". Um dos exemplos que resume todo o estilo presente em sua obra pode ser visto no conto título, que traz a história de uma família que convive com um tigre solto em casa e sempre que precisam passar de um aposento ao outro, devem certificar-se de que o tigre não está lá. Enquanto isso, vai lentamente traçando o perfil dos personagens arrematando a história com um final marcante. Sua abordagem peculiar do cotidiano fez de Cortázar um dos expoentes da literatura latino-americana. Sua morte prematura criou um espaço aberto à imaginação, porque como ele talvez dissesse comentando isto, daquele seu jeito "cortaziano" de escrever: "A morte, apenas cinco letras que nos leva daqui pra lá sem ao mesmo nos perguntar se pode".

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    Ana Sá10/03/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Um livro que vomita coelhinhos

    Em respeito às estudiosas dos ditos “realismo maravilhoso”, “realismo fantástico”, “fantástico" e afins, eu não vou tentar enquadrar o argentino Cortázar em uma dessas caixinhas. Minha memória sempre me trai, sobretudo porque faz tempo que estudei as diferenciações desses conceitos. Sobre "Bestiário" (1951), limito-me então a tentar descrever, sem conceituar, aquilo que esse conjunto de contos pode nos causar. Durante a leitura, ficamos rapidamente envolvidas no conforto das cenas cotidianas privilegiadas pelo autor (o habitar de uma casa no fim do dia, uma viagem de ônibus, uma carta que traz notícias). Contudo, a questão é que nunca encontramos paz nessas situações, pois há sempre um elemento fantástico/sobrenatural/paranormal que nos tira o sossego. Daí que percebemos a genialidade da escrita de Cortázar: a onipresença do incômodo, do insólito, não descarateriza/invalida a familiaridade que a narrativa nos traz, como o que acontece em outras obras latino-americanas dessa vertente, mas aqui com uma dose maior de suspense a depender do conto. Portanto, neste livro, ou abraçamos o extraordinário como parte da paisagem ou simplesmente não seguimos. E se o abraçamos, o mérito é todo de Cortázar. Lendo e relendo “Bestiário”, eu sempre me convenço de que faz sentido vomitar coelhinhos, criar "mancúspias" ou se habituar ao tigre que passeia tranquilamente pelos cômodos da casa. Lendo e relendo “Bestiário”, eu perco o fôlego com a insanidade dos clássicos contos “Casa tomada” e “Ônibus”, mesmo encarando-os como narrativas que poderiam ter sido protagonizadas por mim num dia qualquer (mesmo sabendo que na verdade isso seria impossível, mas que, quem sabe, sei lá, vai saber, já nem sei de mais nada…). Como eu já disse aqui no Skoob, entendo quem vê em Cortázar certa “repetição de fórmulas”, pois há mesmo aspectos e estratégias que se repetem. A questão é que isso nunca me incomodou, mas ao contrário, me seduz. Me agrada a presença desse “inesperado no esperado” de quando leio seus textos. E, além disso, há contos como “Distante” e “As portas do céu” que escapam ao lugar-comum do fantástico ao tocarem temas tão intensamente humanos como os traumas deixados pela violência física ou o processo de luto pela pessoa amada. Trata-se de um breve livro de contos que é, na minha opinião, uma boa introdução à literatura de Cortázar. Recomendo “Bestiário” com frequência, para muita gente. Não gosto de todos os contos da obra, mas gosto exageradamente de alguns. Quem quiser apenas sentir o clima do livro, pode ler avulsamente, e bem rapidinho, “Casa tomada” ou “Ônibus”, na internet mesmo (sim, esses dois contos são inesquecíveis, por isso a minha insistência neles!). Mas entenda: é preciso ir de peito aberto. É um livro que vomita coelhinhos, não o censure! Obs.: se você já leu “Bestiário" e gostou, sugiro fortemente “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo. Se você aceitou de bom grado a casa tomada, o tigre e tudo mais, não terá problemas em encarar uma novela na qual não se percebe facilmente quem é vivo e quem é morto. Também reli esse livro recentemente e, tal como na releitura de “Bestiário”, celebrei mais uma vez essa fartura latino-americana no que diz respeito ao “fantástico" e ao "extraordinário" em seus sentidos mais amplos.

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