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    Pasenow ou o romantismo | 1888 (Os sonâmbulos #1) -

    Hermann Broch

    Benvirá
    2011
    276 páginas
    9h 12m
    ISBN-13: 9788502142657
    Português Brasileiro
    4.2
    113 avaliações
    Leram156Lendo15Querem596Relendo0Abandonos7Resenhas9
    Favoritos5Desejados596Avaliaram113

    Pasenow ou o romantismo, o romance de abertura da trilogia Os sonâmbulos, passa-se na Prússia, entre as cidades de Berlim e Stolpin. O tenente Joachim von Pasenow, personagem central, é um homem perdido em meio à decadência dos valores e da personalidade, da falta de sentido e de orientação no mundo oderno. Seguindo o romantismo assinalado no subtítulo, Pasenow, o mais quixotesco dos personagens da trilogia, nega a realidade e, nostálgico, tenta viver em um mundo que não existe mais. Retrato brilhante do homem atormentado no final do século e em todos os tempos, Os sonâmbulos é uma obra que nos ajuda a compreender as necessidades das novas formas de expressão artística da virada do século XIX para o XX. Seu despojamento, absolutamente original para a época, além de ser um marco na iteratura clássica, capta a complexidade da existência no mundo moderno, em uma estrutura que realiza a união da narrativa, do sonho e da filosofia em um único tom.

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    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino10/01/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Certos autores tem um impacto gigantesco em nossas vidas e não conseguimos nos livrar de suas reflexões com tanta facilidade. Posso dizer que Walter Benjamin teve esse sentido em minha vida, o que me causa um certo espanto e frequentemente me recordo de algumas de suas observações, embora, com o tempo, tenha discordado de muitas delas. Mas Benjamin foi um analista interessante porque era “contaminado” por uma teologia herdada do judaísmo, o que o fazia pensar na história como tendo um sentido sempre dramático e decisivo a cada nova mudança e configuração. Uma das reflexões de Benjamin que mais me marcaram foi uma passagem do ensaio “o narrador”, onde ele define que a sociedade passava por mudanças tão drásticas no começo do século XX que todos estavam tontos, um pouco entorpecidos e completamente ignorantes de seu sentido e alcance. Esse entorpecimento não deixou as pessoas frearem a tragédia que se aproximava, que era a Grande Guerra, mesmo com a escalada de conflitos entre as grandes potências, com o investimento de somas cada vez maiores em armas e equipamentos de guerra, além de aumento do efetivo de tropas. Em termos da sociedade, a destruição do antigo mundo novecentista era acelerada. Ninguém compreendia muito bem o que estava sendo gestado, mas todos pressentiam que os antigos valores não seriam mais suficientes diante da nova realidade. Um dos poucos que pressentiu isso foi Dostoiévski, que conseguiu dizer, com bastante exatidão, que a “morte de Deus” seria uma tragédia para humanidade. Outros, no entanto, tiveram sucesso em descrever essa situação, sendo filhos dessa mudança. Quando ouvimos falar da trilogia Os Sonâmbulos o quadro de deterioração dos valores é frequentemente lembrado. Mas, sinal dos tempos em que vivemos, eles mesmos de uma profunda destruição, pouco se percebe que falta um substantivo para ajudar a definir essa expressão com mais exatidão. Deterioração dos valores morais, seria mais exato dizer. Quando uma sociedade começa a abandonar a moralidade que a sustentava, é inevitável que enfrente crise, conflitos, mortes e guerras. O que tinha valor está sendo abandonado e algo posto em seu lugar, novos líderes surgem, novas nações, novos modos de organização político-econômica. É quase inevitável que aqueles que declinam se choquem com os que estão ascendendo, que se cruzem em algum lugar do caminho e se estranhem. O primeiro volume dessa trilogia mostra o tenente Joachim Von Pasenow nesse momento, em que os movimentos de passado e futuro confluem no presente, destruindo e erguendo um novo mundo ao mesmo tempo. Mas fiz a ressalva da deterioração dos valores morais porque, embora o mundo a seu redor esteja mudando, é nesse âmbito que tudo fica ainda mais nebuloso. Por isso, não concordo muito com quem apenas diz que Pasenow pretende manter o antigo, simbolizado por seu uniforme, enquanto está perdido com as novidades. O uniforme não funciona como um farol durante a tempestade, mas como uma imagem que transmite autoridade, um resquício oco, apenas uma aparência do passado. Enquanto veste sua farda respeitável, Pasenow, na verdade, mergulha no lixo, se deixa levar pela busca de prazeres com uma prostituta, mesmo tendo uma mulher prometida em sua cidade natal. Ele não quer o mundo respeitável, não quer usar a farda como um instrumento para construir o futuro. Ele quer apenas gozar prazeres inimagináveis ao lado de sua amante e nada mais. Enquanto o mundo tem seus olhos voltado para o gozo, deixando a construção do futuro de lado, tudo ao redor desaba por falta de zelo. Esse é Pasenow, que não tem a menor intenção de assumir responsabilidade alguma na fazenda, tampouco as responsabilidades do cargo que almeja — ele quer o poder e o status da promoção, mas não quer trabalhar mais, o que seria uma consequência da promoção. Enquanto seu pai adoece, ele sonha apenas voltar aos braços da amante e viver o prazer. Discordo, portanto, daqueles que dizem que o personagem é indeciso diante das incertezas da vida. Ele sabe muito bem o que quer, mas pressente que todas as escolhas tem algum ônus e isso o afasta. Seria melhor, parece, que alguém assumisse as responsabilidades e o deixasse apenas com o título e a amante, nada mais. Ao lado da noiva, Elizabeth, ele sabe que terá prestígio e dinheiro, porque o pai dela é rico, mas sabe também que terá afazeres e terá que construir uma família. Considero essa leitura bastante oportuna, porque as modificações aceleradas em nossos dias (me refiro a tudo que a eleição americana provocou no mundo em pouco mais de um dia) nos fazem desejar a tranquilidade de um mundo sem responsabilidades e de prazer. Mas não há responsabilidade maior do que a de construir o futuro, esse é um fardo que foi entregue a cada um de nós, embora muitos se ressintam e o abandonem, preferindo se entregar ao prazer desmedido, que pode também ser chamado de vício. O futuro, portanto, não é necessariamente melhor, não basta que o novo se erga para que o adoremos, não. Ele só terá algum sentido se for consequência daquilo que fizemos no presente, que é ancorado no passado. Essa foi a verdadeira tragédia daquele período — e pode ser a nossa. Pasenow não foi capaz de compreender esse encadeamento, preferindo aproveitar o declínio do velho para abandonar as esperanças e responsabilidades do futuro. Quando se renuncia ao passado e ao futuro, resta apenas o presente, solto, sem qualquer ligação, sem provocar qualquer consequência. É como se uma época inteira tivesse regredido a uma adolescência perene, verdadeiramente entorpecida pelos prazeres e não desejasse mais nada.

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    Hermann Broch

    Foi um escritor austríaco de etnia judaica, considerado um dos três grandes nomes da literatura modernista alemã e um dos maiores do século XX, ao lado de Robert Musil e Thomas Mann. Predestinado a trabalhar na fábrica têxtil de seu pai em Teesdorf, vendeu a fábrica e decidiu estudar matemática, filosofia e psicologia na Universidade de Viena. Embarcou na carreira literária aos 40 anos e aos 45 publicou sua primeira novela, "The Sleepwalkers" (Os Sonâmbulos). Foi preso pelo nazistas em 1938, porém um movimento organizado por amigos - incluindo James Joyce - conseguiu tê-lo libertado e autorizado a emigrar, primeiro para o Reino Unido, depois para os Estados Unidos, onde finalmente terminou seu romance "The Death of Virgil" e começou a trabalhar, como Elias Canetti, em um ensaio sobre o comportamento dos grupos sociais, o qual permaneceu inacabado.

    12 Livros
    20 Seguidores

    Hermann Broch