Um mundo bem único
Há quem diga que os artistas vivem em um mundo só deles, um micro-cosmo onde se encontra a criação perfeita e a plenitude artística. Em Paris é Uma Festa, Ernest Hemingway não escapa de se tornar cidadão desse mundo particular, habitando-o de uma maneira que só nos lembra do caráter da sua genialidade autoral. A obra em questão segue os dias do autor em Paris, esse lugar que se apresenta para ele como um banquete móvel que proporciona toda a nutrição necessária para a energia criadora de artistas em geral, em especial dos escritores. Para quem tem predileção pela criação literária, o livro se revela enquanto um diário empático que perfaz as principais etapas do processo da escrita, indo dos rompantes de inspiração aos empecilhos mundanos. Dessa maneira, a obra torna-se inspiradora, como se transportasse a nós, meros (mortais) leitores, para esse mesmo mundo povoado pela arte e nos dotasse de um pequeno mas valiosíssimo pedaço do imensurável potencial criador de autores como Hemingway e seus contemporâneos. Não obstante, o banquete de Paris também se mostra um pouco indigesto, especialmente na representação da pressão psicológica que o autor inflige a si mesmo para atingir sua criação. Na obra, há momentos em que Hemingway se vê tomado por uma inquietude decorrente da sua auto-cobrança que o leva a buscar subterfúgios danosos para si. Contudo, são nesses momentos que o lado positivo do banquete parisiense se sobressai ao ancorar o autor em uma realidade frutífera para si e para sua criação. Finalmente, a leitura desta obra mostrou-se muito proveitosa, e assim será para aqueles que, assim como Hemingway, também se veem pegos pela inquietude criativa e presos em um mundo só seu. A esperança final é que esse mundo nos ancore nas coisas boas da arte e que seja tão nutritivo como o banquete parisiense.



